Escolhido para representar o Brasil no Oscar, “Feito Pipa” chega aos cinemas de todo país nesta quinta-feira (5), com Lázaro Ramos, Teca Pereira e o jovem ator revelação Yuri Gomes, de 11 anos, todos sob a regência do diretor cearense Allan Deberton.
Premiado como melhor ator coadjuvante no Festival de Gramado, Lázaro Ramos conversou com o Brasil de Fato sobre as expectativas da estreia e se demonstrou confiante para a busca pela mais prestigiada estatueta do cinema.
“Eu estou torcendo muito para que as pessoas vejam todas as temáticas que são tratadas ali. Ele tem uma grande qualidade, não é um filme didático, né? Por isso ele sensibiliza tanto”, comenta. “As pessoas mais sensíveis vão conseguir identificar as outras camadas. Mas quem não tiver sensibilidade a esses outros temas também desfrutará do filme.”
O longa se passa no interior do Ceará, em uma cidade que foi impactada pela construção de uma barragem. Gugu, interpretado por Yuri Gomes, é um menino de 11 anos que perdeu a mãe e é criado pela avó Dilma, personagem de Teca Pereira.
Lázaro Ramos é o pai que age de maneira ríspida com o menino e não respeita o jeito dele ser e se expressar.
“Temos um vilão e um herói, mas não com as tintas que geralmente pintam um herói ou um vilão. Eu acho que tem umas sutilezas aí, uns não ditos, uns olhares, umas opções de tom de cena que eu acho que deixam o filme muito interessante.”
Como pano de fundo, o filme revela como a construção de barragens impacta a saúde mental da população. Lázaro Ramos comenta que conhece essa realidade e que esse é um dos elementos que traz veracidade para o longa ao retratar um Nordeste “sem estereótipos”.
Confira a entrevista na íntegra
Brasil de Fato: Lázaro, o filme com certeza foge daquele maniqueísmo do bem contra o mal. Mas, na sua opinião, temos um herói e um vilão?
Lázaro Ramos: Temos um vilão e um herói, mas não com as tintas que geralmente pintam um herói ou um vilão. Eu acho que tem umas sutilezas aí, uns não ditos, uns olhares, umas opções de tom de cena que eu acho que deixam o filme muito interessante nesse lugar.�
Eu acho que a opção desse herói [o personagem Gugu] é muito legal porque dá protagonismo a um personagem que, em outros filmes e situações, seria um coadjuvante, sem muita história.�
Ele tem história, ele está pleno, ele está dizendo: “Eu sou assim”. Em nenhum momento ele se nega a ser quem ele é.�
Ele não passa pelo momento do herói da dúvida, de “eu aceito o meu poder, ou não”. Ele sabe: “Eu sou poderoso, eu sou assim, você que está errado de não me aceitar do jeito que eu sou”. Então dá uma tinta diferente para esse herói.�
E esse vilão [Batista, pai de Gugu], ao mesmo tempo, não é um vilão que parece estar distante da gente, que a gente aponta o dedo, “olha como esse homem é mau”. Ele está próximo da gente. Ele parece com a gente às vezes. Porque ele mostra que tem amor pelo filho, mas tem uma rigidez e uma incapacidade de aceitar o filho do jeito que é, o que o torna um vilão.�
Não um vilão que está num lugar comum, mas um vilão que a gente diz assim: “Eu podia ser esse vilão porque às vezes eu quero controlar o jeito do outro existir, às vezes eu sou violento também, eu cometo essas pequenas violências em algum momento.”
Queria aproveitar que a gente está ainda respirando esse clima pós-eleição para trazer um assunto que dialoga com o filme: a terceira idade. A gente se emocionou muito vendo senhorzinhos e senhorinhas indo votar de cadeira de rodas, com cilindro de oxigênio, enfim… E o filme debate política de cuidado ao retratar a personagem Dilma, uma mulher idosa que quer viver. Você fez essa relação também?
Eu acho que, em vários sentidos, ela [Dilma, avô de Gugu], apesar de já ter uma certa idade, não perdeu os códigos de bem viver dela, de namorar, de gostar de ir para a festa, de ser desbocada com o neto dela.�
Além disso, é exemplar o amor que o Gugu tem pela avó dele. Eu queria ter minha avó viva agora para exercer esse amor tão lindo que o Gugu nos lembra e nos ensina.
Nesse ano em que a gente viu a nossa terceira idade se mobilizando pelo país, dando sua opinião, indo votar, eu acho que é didático. Eu acho que o filme, sem ter mirado esse momento histórico, vem num bom momento para a gente abrir o nosso coração para esses temas todos.�
Outro tema muito importante que o filme aborda é o da população atingida por barragem. É um assunto que foi novo para ti?�
Não, não foi novo. Eu venho de uma cidade pequena também. Wagner [Moura], que é meu amigo, meu irmão, tem uma história da cidade dele ter sido toda inundada para a construção da barragem. Eu já visitei cidades que têm essa experiência.�
Eu estou torcendo muito para que as pessoas vejam todas as temáticas que são tratadas ali [em “Feito Pipa”]. Ele tem uma grande qualidade, não é um filme didático, né? Por isso ele sensibiliza tanto.�
As pessoas mais sensíveis vão conseguir identificar as outras camadas. Mas quem não tiver sensibilidade a esses outros temas também desfrutará do filme.�
Agora, o tema da barragem, da inundação, da morte da mãe do Gugu estão ali como uma camada importantíssima para falar, inclusive, de uma região do Brasil que muitas vezes é estereotipada na sua representação.
É um Nordeste que não tem estereótipos. Esses personagens estão olhados com carinho e com respeito na sua ambiência em que vivem, naquela cidade, no jeito que é fotografada, no jeito que se vestem, no jeito que mostram o seu desejo, nas músicas que escutam, que é muito mais próximo do que é o nosso Nordeste, do que é o meu Nordeste, do que algumas vezes foi representado.�
Queria falar de Oscar. Você está apegado à teoria do “Saneamento Básico”, que diz que os atores deste filme estão sendo todos indicados, que aconteceu com a Fernanda Torres e o Wagner Moura e que você seria o próximo?
Eu acho que é verdade. Eu já estou dizendo isso que é verdade, já estou chamando o Jorge Furtado de Nostradamus do cinema brasileiro. Acho que, depois de Fernanda Torres, Wagner e eu, ano que vem temos Tonico Pereira, Camila Pitanga em breve, Bruno Garcia. A lista está ali…
Uma última pergunta que foge um pouco do filme, mas não queria perder a oportunidade de perguntar: como você reagiu, qual foi a sensação de ser elogiado pelo Daniel Vorcaro?
[Risos] Eu fiquei tão feliz em ser chatinho. Eu fiquei muito feliz. É sinal de que a gente está fazendo certo, está tomando as decisões certas, né?�













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