Um curta-metragem gaúcho ambientado no século 19 chega à 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado propondo uma revisão do faroeste a partir do Sul do Brasil. Dirigido por Guilherme Suman e Allan Riggs, “Terra Bruta” é resultado da parceria entre as produtoras Riggs Productions e Suman Filmes, firmada em 2025.
O curta chega ao festival depois de acumular reconhecimento em mostras realizadas em diferentes regiões do Brasil, além de premiações em Hollywood e participação em um festival qualificatório para o Oscar, nos Estados Unidos.
A obra, de produção sediada em Canoas, integra a lista de 18 curtas-metragens gaúchos selecionados para a mostra competitiva do Gauchão, realizada em parceria entre o festival e a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Produções de Porto Alegre, Pelotas, Canoas, Caxias do Sul e outras cidades disputam o Prêmio Assembleia Legislativa.
Segundo a comissão de seleção do festival, os filmes escolhidos para a mostra regional revelam uma rede de profissionais dedicada a transformar ideias em imagem, som e emoção.
Um retorno às origens no século XIX
A narrativa acompanha Miguel, um jovem que retorna ao Sul do Brasil para revisitar suas origens depois de anos de ausência. Ao longo do curta, o personagem enfrenta memórias fragmentadas e ameaças constantes, em uma jornada descrita pela produção como busca por purificação em meio a paisagens hostis e aos fantasmas do passado.
O roteiro é assinado por Thiago Suman, Guilherme Suman e Allan Riggs. De acordo com a produção, o texto propõe uma reflexão sobre a construção histórica da masculinidade e sobre como a associação entre o ser homem, a força, o domínio e a repressão das emoções contribui para formas de violência que atravessam tanto o plano simbólico quanto o físico, moldando identidades marcadas pelo silêncio e por traumas não elaborados.
Faroeste como ferramenta de desconstrução
O curta dialoga com códigos clássicos do faroeste, gênero associado a diretores como Sergio Leone e a atores como Clint Eastwood, mas propõe, segundo a equipe, o oposto do que historicamente marcou essas narrativas, adaptando ao Sul do Brasil o gênerowestern do cinema, de caubóis e bangue-bangue. Na leitura da produção, a figura tradicional do caubói, marcada pela ambiguidade entre civilização e barbárie, dá lugar a uma visceralidade que constrói um mundo devastado, cujos valores foram corroídos para escancarar os mecanismos de construção estrutural do masculinismo ocidental, das manifestações mais cotidianas às expressões mais extremas.
A direção optou por uma estética seca e árida, recurso usado para reforçar a brutalidade como paisagem existencial da história. Thiago Suman e Guilherme Suman assinam também o figurino e a direção de arte do curta, responsáveis por ampliar a densidade visual da produção. Segundo a equipe, o filme não pretende apenas apresentar a violência, mas provocar no espectador uma pergunta sobre até que ponto ela é inevitável quando a identidade masculina é construída sobre sofrimento e silenciamento.
Trajetória da dupla antes de Gramado
Guilherme Suman e Allan Riggs já haviam trabalhado juntos antes de “Terra Bruta”. Em 2025, os dois assinaram o curta “Cardo”, reconhecido com o prêmio Special Recognition no Los Angeles Brazilian Film Festival, nos Estados Unidos, conforme registros da base de dados de premiações do IMDb.
Riggs soma, segundo a mesma base, uma trajetória de mais de 30 prêmios e nomeações em festivais internacionais, incluindo circuitos como o Top Shorts Film Festival e o Festigious International Film Festival, além de premiações em Los Angeles. Ao todo, são 36 prêmios e duas indicações.
A programação do Gauchão e a 54ª edição
O 54º Festival de Cinema de Gramado ocorre entre os dias 12 e 22 de agosto, com abertura oficial marcada para o dia 14, quando será exibido fora de competição o longa “Antártida”, produzido pelo Núcleo de Filmes dos Estúdios Globo em coprodução com a TV Globo.
Entre as novidades da edição de 2026 está a ampliação dos recursos de acessibilidade: todos os longas-metragens das mostras competitivas e parte dos curtas em disputa contarão com audiodescrição, Libras e legendas, disponíveis por meio do aplicativo MovieReading.
“Terra Bruta” disputa o Prêmio Assembleia Legislativa ao lado de outras 17 produções gaúchas, entre elas “O Acumulador de Memórias”, “Banho Maria”, “Braço Forte”, “Claudete”, “Coisa Ruim”, “Elisete Tem que Casar!”, “Grão”, “Manjericão”, “Mizandrika”, “Procura-se Ator”, “Raidinalha”, “O Retorno”, “A Vaidade é a Última Que Morre” e “O Véu”. A produção de “Terra Bruta” é oriunda de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, uma das cidades de origem das obras selecionadas para a mostra regional.
O trailer de “Terra Bruta” está disponível no YouTube.














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