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Sister Rosetta Tharpe: a mulher negra que inventou o rock e foi roubada pela história

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Nascida em 20 de março de 1915, na pequena Cotton Plant, no estado do Arkansas, sul dos Estados Unidos, Sister Rosetta Tharpe cresceu entre os cânticos da Igreja de Deus em Cristo (Church of God in Christ), onde começou a cantar e a tocar guitarra ainda criança, acompanhando a mãe, missionária e musicista. Ainda na infância, mudou-se para Chicago, cidade que ampliou seus horizontes artísticos e a aproximou do gospel e do blues.

Nas décadas de 1930 e 1940, tornou-se uma artista consagrada ao levar a guitarra elétrica e a música negra religiosa para os grandes palcos, influenciando decisivamente a formação do rock and roll. Rosetta morreu em 9 de outubro de 1973, na Filadélfia, deixando um legado que apenas nas últimas décadas começou a ser restituído à história: o reconhecimento de que uma mulher negra esteve na origem de uma das mais importantes revoluções da música popular do século 20.

Muita gente aprendeu que o rock nasceu com Elvis Presley. Outros ouviram que seus pais fundadores eram Chuck Berry, Little Richard ou Jerry Lee Lewis. Todos gigantes da música. Todos revolucionários à sua maneira. Mas antes deles, quando a guitarra elétrica ainda era vista como um experimento e o rock sequer tinha nome, Rosetta já incendiava palcos, desafiava convenções e desenhava, nota por nota, aquilo que o mundo conheceria como rock and roll.

Não foi apenas uma grande cantora. Foi uma revolucionária da música. Com uma guitarra elétrica nas mãos e uma voz moldada pelo gospel das igrejas negras dos Estados Unidos, Rosetta rompeu fronteiras entre o sagrado e o popular, entre o blues e o espiritual, entre a tradição e a ousadia. Tocava com uma técnica que décadas depois seria admirada por guitarristas consagrados. Cantava com a intensidade de quem conhecia a dor e transformava sofrimento em potência criadora.

Mas havia um problema. Ela era mulher. E era negra. E fazia tudo isso na América segregacionista da primeira metade do século 20. O racismo dizia que pessoas negras deveriam permanecer invisíveis. O patriarcado afirmava que mulheres não ocupavam o centro do palco. A indústria cultural, controlada por homens brancos, preferiu transformar em ícones aqueles que beberam da fonte criada por Rosetta, enquanto sua própria história era lentamente empurrada para as margens. Não foi esquecimento. Foi um processo político.

A cultura dominante também escolhe quem merece ser lembrado. Ela fabrica heróis, distribui coroas e, muitas vezes, enterra as mãos que realmente construíram a história. É assim com lideranças populares. É assim com cientistas. É assim com escritoras. É assim com trabalhadoras rurais. É assim com mulheres negras que ousaram criar algo novo. A invisibilização de Sister Rosetta Tharpe é parte da mesma lógica que insiste em negar o protagonismo das mulheres na produção do conhecimento, da arte e das transformações sociais.

O capitalismo aprendeu cedo que também existe lucro na memória. Comercializa símbolos, vende rebeldia como produto e transforma revoluções culturais em mercadorias. O rock, que nasceu da experiência do povo negro, da espiritualidade afro-americana, do blues, do sofrimento e da esperança dos trabalhadores explorados, foi embranquecido para se tornar mais facilmente consumido. Apagaram a origem para vender o resultado. Mas a verdade insiste em sobreviver.

Cada vídeo antigo de Rosetta empunhando sua guitarra desmonta décadas de mentira. Cada acorde revela que aquela mulher já dominava um instrumento quando muitos dos futuros “reis do rock” ainda eram crianças. Cada apresentação confirma que sua música carregava exatamente aquilo que faria do rock uma linguagem universal: intensidade, liberdade e insubmissão.

Não é por acaso que sua redescoberta acontece justamente em um tempo em que mulheres negras reivindicam seu lugar na história. Quando os movimentos feministas denunciam o apagamento do trabalho das mulheres. Quando a luta antirracista exige que os livros, os museus, as universidades e os meios de comunicação contem a história inteira, e não apenas a versão escrita pelos vencedores. Recontar a trajetória de Sister Rosetta Tharpe é um ato de justiça histórica. É afirmar que a memória também pertence aos povos. É reconhecer que nenhuma transformação cultural nasce do privilégio, mas da criatividade de gente que resiste.

Rosetta não apenas inventou um jeito novo de tocar guitarra. Ela enfrentou um sistema inteiro apenas por existir. Cada riff era uma recusa ao silêncio. Cada apresentação era um enfrentamento ao racismo. Cada aplauso conquistado era uma derrota do patriarcado. Talvez por isso sua música continue tão viva. Porque ela nos lembra que nenhuma opressão consegue sufocar para sempre uma voz comprometida com a liberdade.

Enquanto houver mulheres rompendo cercas, pessoas negras ocupando espaços historicamente negados, trabalhadores transformando dor em arte e juventudes recusando o conformismo, Sister Rosetta Tharpe continuará subindo ao palco. Não apenas como a mãe do rock. Mas como símbolo de uma verdade que a história oficial tentou esconder: as grandes revoluções quase sempre começam pelas mãos daqueles e daquelas que o poder insistiu em tornar invisíveis.

* Jornalista do Brasil de Fato RS.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.





Com Informações: Brasil de Fato

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