Deterioração dos serviços públicos, aumento do custo de vida, achatamento da renda, especulação imobiliária. Uma onda de protestos – que reflete os impactos das políticas de austeridade dos governos europeus – se espalha pelo continente desde setembro. Começaram na França e se ampliaram para países como Espanha, Itália, Portugal, Bélgica, Grécia e Albânia.
Na França, os estudantes começaram a montar barricadas nas portas das escolas, reivindicando professores e infraestrutura. Na Espanha, uma senhora de 81 anos despejada movimentou a indignação contra a especulação imobiliária das grandes corporações. Os portugueses também foram acampar nas praças para garantir o direito à moradia. Na Itália, o alto custo da gasolina mobilizou os caminhoneiros, enquanto os estudantes protestam por melhorias no ensino.
Em 17 de setembro, estudantes e professores de uma escola de ensino médio em Créteil, na periferia de Paris, iniciaram uma greve, reivindicando melhorias nas instalações, aumento das salas de aula e contratação de professores. Os protestos se espalharam pelas escolas com os mesmos problemas.
“Há muito que se tem a pedir mais financiamento para esse departamento, porque temos muitos estabelecimentos de ensino que estão em dificuldade”, contou ao Brasil de Fato a portuguesa Ana Rita Eça, mãe de dois filhos que participam dos protestos em território francês. “Há cada vez menos meios financeiros à disposição para o ensino público. Um jovem chega a perder, em média, um ano nos doze anos da escola, porque não há professores suficientes”, disse.
Uma das características dos protestos é o caráter espontâneo. “Em relação ao movimento estudantil, é curioso porque, apesar de existirem organizações e sindicatos estudantis, não foram elas que puxaram os protestos”, explicou ao BdF a cientista política francesa Florence Poznanski. “Houve, sim, uma maneira orgânica também. Foi mais uma coisa que elas [organizações] acabaram por acompanhar, mas que foi puxada pelos próprios alunos”, afirmou.
Além da França, a Espanha começou a se mobilizar cerca de dez dias depois. O acontecimento que impulsionou as mobilizações foi o caso da aposentada Maricarmen Abascal, de 87 anos, despejada da sua casa em Madri, onde vivia há 71 anos, sem nunca ter deixado de pagar o aluguel.
“O caso gerou uma enorme repercussão midiática porque rompeu com a ideia de que cumprir todas as obrigações é suficiente para garantir segurança e estabilidade”, analisou Miriam Bùe, do Sindicato de Inquilinas de Madri. Ao Brasil de Fato, ela observou que a pressão imobiliária tem sido forte no país. “Maricarmen tinha feito tudo aquilo que a sociedade lhe dizia que devia fazer: pagar a renda, cumprir as regras e respeitar as suas obrigações. E, mesmo assim, estava a ser expulsa da casa onde tinha vivido durante a maior parte da sua vida”, pontuou.
“Os dados ajudam a compreender a dimensão do problema: ter um salário médio na Espanha já não garante a possibilidade de alugar uma casa — nem sequer um quarto — em condições economicamente sustentáveis”, apontou a ativista. “A distância entre os rendimentos do trabalho e os preços da habitação tornou-se um dos principais fatores de precariedade, afetando particularmente os jovens e os trabalhadores com rendimentos baixos e médios.”
Portugal
A questão da moradia também foi o estopim para os protestos em Portugal, em outubro. “É preciso distinguir a mobilização atual da história dessa luta”, contou ao BdF a brasileira Ana Carolina Mora, que vive no país. “O acampamento do Porto começou em 10 de outubro de 2026, na sequência dos protestos contra o custo de vida. Mas as manifestações pela habitação já vinham acontecendo: a plataforma Casa para Viver, por exemplo, convocou uma jornada nacional em 1º de abril de 2023”, explicou.
“Como brasileira que vive no Porto, também considero fundamental defender esse direito para quem mora aqui, independentemente da nacionalidade.” Entre as reivindicações dos manifestantes estão a retirada da proposta de alteração dos limites para o valor dos aluguéis, o fim dos despejos, mais habitação pública, a recuperação de imóveis vazios para moradia e medidas contra a compra de imóveis por fundos especulativos.
“Há uma presença jovem visível, mas a participação reúne estudantes, trabalhadores, pessoas desempregadas e de diferentes idades. Há participantes ligados a coletivos e outros sem qualquer vínculo organizado”, detalhou Mora.
Itália
Na Itália, os protestos começaram em 16 de outubro, um mês após o início das mobilizações na França. A moradia e o custo de vida estão entre as principais reivindicações. Agricultorese caminhoneiros se mobilizaram contra os altos custos da produção, devido, principalmente, aos preços dos combustíveis, influenciados pela guerra na Ucrânia e o conflito no Irã, provocado pelos Estados Unidos e Israel. Enquanto os estudantes se mobilizam por melhores condições de ensino. Neste final de semana, os taxistas também se engajaram no movimento.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Giuliano Granato, do partido de esquerda italiano Poder do Povo, explicou que “as imagens para descrever a situação na Itália hoje são três: primeiro, há supermercados vazios, não há mercadorias, existem muitos espaços totalmente vazios. Uma segunda imagem é a dos postos de gasolina, onde se formam filas — talvez até quilométricas. A essas duas imagens soma-se uma terceira: a das escolas ocupadas — dezenas delas, especialmente nas grandes cidades do país. Em Nápoles, há mais de 40 escolas ocupadas e também há ocupações em Turim, Milão, Roma e em outras cidades menores”.
“Analisando o cenário de forma mais ampla, percebe-se um cansaço decorrente de tendências que não são de curto prazo. A Itália caracteriza-se por salários muito baixos e estagnados — praticamente os mesmos desde a década de 1990. Entre os países da OCDE, a Itália é o único em que os salários caíram, em vez de subir, desde 1990.”
O salário médio do italiano recuou 3% de 1990 até hoje. Entre 2021 e 2026, houve uma queda no salário real de sete a nove pontos percentuais. Nos últimos meses, houve aumento dos preços da gasolina, dos aluguéis, das contas de luz, gás e água, além dos alimentos, que ficaram 25% mais caros nos supermercados.
Assim como nos outros casos, o movimento italiano envolve diversos setores sociais. “Analisando o movimento sob a ótica de classe, pode-se dizer que o segmento mais mobilizado é uma parte da pequena burguesia: os transportadores autônomos, aqueles que dirigem caminhões. Em muitos casos, trata-se de pequenas empresas que estão sendo duramente atingidas pela alta dos preços dos combustíveis. É um grupo que almeja recuperar a situação que desfrutava antes do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Eles desejam um retorno ao passado. Eles atuaram por meio de um instrumento muito eficaz na Itália, país onde praticamente todo o transporte de mercadorias é realizado por caminhões”, analisa Granato.
Foram os caminhoneiros que fecharam as estradas, bloquearam a distribuição de produtos — o que explica os supermercados vazios e a falta de combustível nos postos.
“Paralelamente a esse setor, mobiliza-se também o segmento estudantil, exausto pela falta de perspectivas e de futuro — sem sequer contar com a promessa que as classes dirigentes faziam à minha geração: ‘Você precisa estudar, fazer sacrifícios e encontrar um emprego; será difícil, mas, após muitos esforços, você conquistará seu lugar na sociedade’. Essa promessa foi traída pelas classes dirigentes e, hoje, simplesmente desapareceu. Às novas gerações, a classe dirigente exige mais sacrifícios em troca de nada — com o agravante da possibilidade de envolvimento em uma guerra”, detalha o italiano, lembrando que a palavra de ordem nas escolas ocupadas é “dinheiro para as escolas e para a educação, não para a guerra”, lembrou o militante.
Governos reagem com violência
Os protestos nos países europeus, de maneira geral, têm sido reprimidos, seja com a força policial, seja de maneira institucional.
No sábado (24), na França, mais de 400 mil pessoas, segundo o próprio governo, se mobilizaram. Acompanhadas de perto pelas forças policiais, as passeatas foram pacíficas, mas, no final do dia, houve repressão em Paris e Marselha. Na capital francesa, a polícia de choque disparou gás lacrimogêneo e jatos d’água contra um grupo de cerca de 500 jovens.
No último final de semana, quase mil pessoas foram presas, enquanto o presidente Emmanuel Macron fala que a “extrema esquerda” quer “derrubar a República” e lança a “lei dos Vândalos”, que prevê ampliar as punições pelos protestos. Na semana passada, o governo anunciou toque de recolher em determinadas áreas das cidades.
Na Espanha, o caso da idosa despejada mostra como se comportam as autoridades. Os manifestantes que tentavam impedir o despejo foram expulsos com gás lacrimogênio, enquanto Maricarmen era retirada do apartamento numa maca e transportada para o hospital.
Em Portugal, no domingo (25), a polícia reprimiu violentamente os acampamentos pelo direito a habitação em Lisboa e no Porto, com dezenas de feridos e a detenção de 31 manifestantes.
Na Itália, no sábado (24), os protestos tiveram cerca de 400 pessoas detidas. Na semana passada, a primeira-ministra Giorgia Meloni, de extrema direita, lançou uma lei que garante a prisão de adolescentes a partir de 14 anos em protestos.
Para Granato, o governo está reagindo a partir de dois movimentos.“São duas maneiras: ’À cenoura e ao porrete’, como dizemos aqui — usando a força e concedendo algo aos que protestam”. Para os caminhoneiros, explciou o militante, o governo ofereceu uma espécie de auxílio-emergencial. Para os estudantes, a repressão.











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