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Rio São Francisco completa 524 anos de integração econômica, social e cultural

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O Rio São Francisco, conhecido como Velho Chico, completa 524 anos neste sábado, 4 de outubro. O marco histórico remete ao dia 4 de outubro de 1501, quando a expedição portuguesa liderada por Américo Vespúcio registrou o rio em homenagem a São Francisco de Assis.

Com 2.700 km de extensão, o curso d’água nasce na Serra da Canastra (MG) e percorre cinco estados até desaguar entre Alagoas e Sergipe, ligando Sudeste e Nordeste.

O São Francisco é fundamental para a integração regional. Sua bacia drena 8% do território nacional e sustenta grandes cidades, atividades agrícolas, navegação e produção de energia elétrica. Usinas como Sobradinho, Paulo Afonso, Itaparica e Xingó compõem um dos maiores complexos hidrelétricos do país, garantindo parte significativa do suprimento de energia para o Nordeste.

O reservatório de Sobradinho (BA), por exemplo, é o maior da bacia, com capacidade para 34 trilhões de litros. A barragem regula as vazões e garante abastecimento para municípios e irrigação em polos como Juazeiro (BA) e Petrolina (PE).

Cultura ribeirinha e turismo

A vida às margens do São Francisco moldou tradições que atravessam os cinco estados da bacia. Em Minas Gerais, onde nasce o rio, comunidades rurais mantêm práticas agrícolas e festas religiosas ligadas ao ciclo das águas. Na Bahia, romarias como a de Bom Jesus da Lapa reúnem milhares de fiéis e integram a identidade cultural da região.

No baixo curso, entre Alagoas e Sergipe, cidades históricas como Penedo e Piranhas preservam casarios coloniais, procissões fluviais e tradições de pesca artesanal. Artesanato, gastronomia e música ribeirinha são expressões vivas da relação das comunidades com o Velho Chico.

Foto: D’Ponta

Outro símbolo marcante da cultura ribeirinha são as carrancas, esculturas de madeira tradicionalmente fixadas na proa das embarcações que navegavam pelo São Francisco. De origem popular, elas eram entalhadas com feições assustadoras e tinham a função de espantar maus espíritos e proteger tripulantes e cargas durante as viagens. Hoje, as carrancas são reconhecidas como patrimônio cultural do Velho Chico e permanecem presentes no artesanato, no turismo e na memória coletiva dos povos ribeirinhos.

O São Francisco também é um polo de turismo. Passeios de barco pelos cânions de Xingó, visita às ilhas fluviais, ao patrimônio histórico de Penedo e Piranhas e à produção de vinho no Vale do São Francisco atraem visitantes de todo o país.

O turismo comunitário, aliado à educação ambiental, desponta como alternativa para gerar renda e valorizar a cultura ribeirinha.

Transposição: importância e controvérsias

Transposição do Rio São Francisco no Rio Grande do Norte Fotos: Junior Rosa/MIDR

OProjeto de Integração do Rio São Francisco (PISF) é uma das maiores obras hídricas do país. Os eixos Norte e Leste somam cerca de 700 quilômetros de canais e estações de bombeamento, levando água para Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. A meta é atender 12 milhões de pessoas em áreas historicamente marcadas pela seca.

A obra é considerada estratégica para garantir segurança hídrica, mas enfrenta desafios. Especialistas alertam para impactos ambientais, como alteração no regime natural das águas e riscos para ecossistemas aquáticos.

Também há questionamentos sobre custos de manutenção e desigualdade no acesso à água — comunidades ribeirinhas temem perder vazão em seus territórios.

Navegação do passado e do futuro

A navegação no Rio São Francisco desempenhou papel central na integração regional até meados do século XX. Vapores do tipo “gaiola”, como o emblemático Benjamim Guimarães, que foi revitalizado recentemente, transportavam passageiros e cargas entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA), movimentando a economia e ligando comunidades ribeirinhas em uma época em que rodovias e ferrovias ainda eram escassas. Portos fluviais eram pontos de comércio, comunicação e circulação de produtos agrícolas, gado e suprimentos.

Foto: Ronan Rocha | Agência Minas Gerais

Com o avanço do transporte rodoviário, a navegação entrou em declínio. A Companhia de Navegação do São Francisco (Franave), criada em 1963, foi liquidada em 2007, encerrando a operação regular de transporte de cargas e passageiros. Atualmente, a atividade se resume a usos turísticos e culturais, com embarcações restauradas em caráter simbólico, enquanto o transporte comercial praticamente deixou de existir.

Recentemente, o governo federal lançou o projeto da Nova Hidrovia do São Francisco, que prevê a reativação da navegação em cerca de 1.371 km de extensão, entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA)/Petrolina (PE). O plano é movimentar até 5 milhões de toneladas de cargas por ano, incluindo grãos, gesso, calcário e minérios. O trecho inicial, de 604 km entre Juazeiro-Petrolina e Ibotirama (BA), será a primeira fase do empreendimento.

A iniciativa busca reduzir custos logísticos, integrar regiões do interior e estimular o desenvolvimento econômico sustentável. Para isso, será necessária ampla dragagem do leito, recuperação de portos fluviais e manutenção constante da calha navegável, especialmente em períodos de estiagem. O desafio será equilibrar o uso do rio para navegação com as demandas de abastecimento, geração de energia e preservação ambiental.

Desafios e perspectivas

Bancos de areia surgiram entre as cidades de Malhada e Carinhanha – Out/2024 – Foto: Tiago Marques | Agência Sertão

O rio enfrenta pressões como assoreamento, poluição, desmatamento das margens e impactos climáticos. Projetos de revitalização e ações de conservação têm buscado recompor matas ciliares, melhorar o saneamento básico e fortalecer a gestão integrada da bacia.

Ao completar 524 anos, o São Francisco continua sendo um eixo de integração econômica, social e cultural. A sustentabilidade do Velho Chico dependerá da conciliação entre uso das águas, preservação ambiental e valorização das comunidades ribeirinhas que mantêm viva sua história.



Com informações do Agência Sertão

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