Apesar do ceticismo em relação ao poder do Congresso diante dos arroubos imperialistas de Donald Trump, os Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês) acreditam que as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para esta terça-feira (3), podem ser uma via para conter as agressões externas do republicano. Na visão da organização, o fortalecimento de candidaturas progressistas faz parte da construção de uma alternativa política que se oponha a Trump e ao sistema bipartidário estadunidense.
Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Luisa Martinez, integrante da direção nacional da organização, afirma que a disputa eleitoral é apenas uma das frentes de atuação do movimento, que também busca enfrentar o imperialismo dos Estados Unidos e fortalecer a organização da classe trabalhadora.
“A responsabilidade da esquerda estadunidense é acabar com o imperialismo, porque todos nós nos beneficiaremos de sua destruição. Assim como na Palestina, a libertação das pessoas neste país está diretamente ligada à libertação dos palestinos, cubanos, iranianos e de todos os outros países bombardeados ou estrangulados economicamente pelo governo dos Estados Unidos, liderado tanto por presidentes democratas quanto republicanos”, disse a cidadã estadunidense de origem chilena.
O DSA reúne militantes, ativistas sindicais e movimentos populares que defendem ampliação de direitos sociais e o enfrentamento do poder econômico das grandes corporações. Embora apoie e organize campanhas eleitorais, o movimento não constitui um partido político independente e não mantém vínculo formal com o Partido Democrata, legenda pela qual concorrem diversos de seus candidatos.
Nas eleições de 3 de novembro, o DSA e suas seções locais apoiam 131 candidatos em 30 estados e no Distrito de Columbia, segundo levantamento da plataforma de informações eleitorais Ballotpedia. Desse total, dez disputam cadeiras na Câmara dos Representantes, 52 concorrem a legislativos estaduais e 69 buscam cargos municipais. Entre os nomes apoiados estão Chris Rabb, candidato pelo 3º distrito da Pensilvânia, na região da Filadélfia, e Angela Gonzales-Torres, que disputa o 34º distrito da Califórnia, em Los Angeles. A organização também apoia candidaturas em Nova York, Michigan e Colorado, entre outros estados.�
Apesar da possibilidade de avanço eleitoral, Martinez demonstra pouco otimismo em relação a uma eventual retomada do controle do Congresso pelo Partido Democrata. Para a dirigente socialista, os votos na legenda devem ser interpretados principalmente como uma manifestação de rejeição ao governo Trump, e não como um sinal de confiança em suas lideranças.�
“Os votos a favor dos democratas devem ser entendidos como votos contra Trump. Nossas expectativas em relação às lideranças do Partido Democrata continuam baixas, independentemente de recuperarem ou não o controle do Congresso”, afirmou.
Martinez também denunciou a influência do lobby sionista na política estadunidense, vetado dentro do DSA pelo estatuto do movimento. “Como movimento socialista nos Estados Unidos, nunca tivemos dinheiro. O que temos são pessoas batendo de porta em porta e fazendo telefonemas para apoiar candidatos e campanhas que tragam dignidade à vida das pessoas e ponham fim aos genocídios que acontecem na Palestina e em Cuba, além de acabar com as sanções”.
Leia a entrevista na íntegra.
Brasil de Fato: Quais são as expectativas do DSA para as próximas eleições de meio de mandato? Quantas cadeiras vocês esperam conquistar e quais disputas ou cargos oferecem as melhores chances de vitória?
Luisa Martinez:Aspiramos vencer as disputas dos candidatos que apoiamos, como Chris Rabb e Angela Gonzales-Torres. Nossos candidatos assumiram um compromisso com nossa plataforma, que inclui rejeitar qualquer vínculo com organizações sionistas e um compromisso explícito com a solidariedade à Palestina e com o BDS, apoiar os sindicatos e uma semana de trabalho de 32 horas, taxar os ricos, garantir saúde universal (Medicare for All), habitação social federal, defender a polícia e abolir o ICE.
Quanto ao Partido Democrata, com o qual não temos nenhuma filiação formal, seu possível sucesso será uma expressão da raiva e da frustração popular contra o governo Trump. Os votos a favor dos democratas devem ser entendidos como votos contra Trump. Nossas expectativas em relação às lideranças do Partido Democrata continuam baixas, independentemente de recuperarem ou não o controle do Congresso. Acredito que exista um entendimento equivocado na América Latina sobre o poder do Congresso. No papel, existe potencial, mas, na prática, praticamente ninguém desafia o status quo. Há inúmeros exemplos, mas vou mencionar um. Uma das campanhas que organizamos depois que o presidente Nicolás Maduro foi sequestrado foi tentar pressionar pela aprovação de uma Resolução sobre Poderes de Guerra (War Powers Resolution) para impedir que o presidente Trump realizasse novos ataques militares contra a Venezuela.
Tecnicamente, o presidente dos Estados Unidos não tem o poder de invadir nenhum país sem a aprovação do Congresso, portanto, nesse sentido, uma Resolução sobre Poderes de Guerra é redundante. Foram os democratas que votaram com os republicanos para barrá-la. Com exceção dos candidatos federais que apoiamos, aos quais confiamos a tarefa de dar voz aos nossos objetivos populares, nós, como organização, não acreditamos, nem jamais acreditamos, que um Partido Democrata profundamente sionista, capitalista e reacionário vá melhorar significativamente as condições materiais de vida das pessoas pobres nos Estados Unidos e acabar com o imperialismo. Se esse fosse o caso, não seríamos socialistas.
Estamos no processo de construção de uma alternativa política, e o socialismo nunca foi tão popular nos Estados Unidos. Temos esperança no futuro porque as pessoas comuns estão despertando para a compreensão de que o capitalismo não é a única opção disponível.
Como o DSA tem enfrentado a influência do lobby sionista tanto no Partido Democrata quanto no Partido Republicano e como pretende continuar essa luta?
Na última conferência do DSA, os membros votaram pela aprovação de uma resolução que condiciona nosso apoio a candidatos ao compromisso com a libertação da Palestina e à rejeição da ideologia e do financiamento sionistas, R:22: Por um DSA Antissionista Combativo [texto abaixo]. Com esse compromisso explícito, vem o apoio material do DSA, que fornece material de propaganda para os candidatos e apoio na forma de voluntários. Como movimento socialista nos Estados Unidos, nunca tivemos dinheiro. O que temos são pessoas batendo de porta em porta e fazendo telefonemas para apoiar candidatos e campanhas que tragam dignidade à vida das pessoas e ponham fim aos genocídios que acontecem na Palestina e em Cuba, além de acabar com as sanções.
Quais são as principais estratégias que a esquerda estadunidense pode utilizar para enfrentar Trump e o movimento MAGA?
Somos um movimento, não um partido. Ainda acreditamos que as urnas podem ser um espaço de luta de classes, mas também lutamos em múltiplas frentes. Na realidade, a atuação eleitoral representa uma fração do trabalho que realizamos como organização. Por exemplo, trabalhamos em campanhas como a Trabalhadores por um Embargo de Armas (Labor for an Arms Embargo), que acaba de ser lançada. Estamos pressionando fortemente por um embargo de armas. Não se trata apenas de retórica: estamos trabalhando estrategicamente para interromper materialmente os carregamentos de todas as formas possíveis, em cada luta local que pudermos travar. Você pode encontrar os detalhes aqui. Outras campanhas que estamos liderando são a luta contra os centros de dados e as câmeras Flock, que são muito impopulares à medida que os Estados Unidos se tornam cada vez mais um Estado de vigilância administrado por bilionários do setor de tecnologia. Também apoiamos ou lideramos iniciativas estaduais, como a legalização do aborto, a restauração do direito de voto de pessoas condenadas por crimes, a energia elétrica de propriedade pública e o café da manhã gratuito nas escolas, para citar algumas. Se tudo o que o DSA fizesse fosse trabalhar em disputas eleitorais, não seríamos tão populares nem atrairíamos tantos jovens quanto atraímos.
A vitória de Lula e a derrota da extrema direita no Brasil dão impulso às lutas e campanhas do DSA nas próximas eleições de meio de mandato?
A lei que acabou com a escala 6×1 e foi aprovada representou uma conquista extraordinária para Lula e para a coalizão de esquerda no poder. Sua aprovação melhorará drasticamente a vida dos brasileiros pobres, e a importância desse esforço para a verdadeira virada na campanha de Lula não pode ser subestimada. Ainda estamos construindo a base necessária para aprovar uma legislação tão poderosa em nível federal, mas tivemos vitórias nos níveis local e estadual. Além disso, é uma prova de que o trumpismo pode ser derrotado.
A atuação de Erika Hilton como mulher trans negra também nos inspira em um momento em que a comunidade trans está especialmente sob ataque nos Estados Unidos.
Qual deve ser o papel da esquerda estadunidense na denúncia e no combate ao imperialismo dos Estados Unidos contra a América Latina e outros países do mundo?
A responsabilidade da esquerda estadunidense é acabar com o imperialismo, porque todos nós nos beneficiaremos de sua destruição. Assim como na Palestina, a libertação das pessoas neste país está diretamente ligada à libertação dos palestinos, cubanos, iranianos e de todos os outros países bombardeados ou estrangulados economicamente pelo governo dos Estados Unidos, liderado tanto por presidentes democratas quanto republicanos. Neste mês, Cuba recebeu mais uma vez o apoio da maioria na ONU pelo fim do embargo genocida que matou muitos cubanos ao longo de gerações. Todos os anos, há 34 anos, essa votação é aprovada, mas nenhum país teve o poder e a vontade de desafiar seriamente o governo dos Estados Unidos quando se trata de Cuba e da Palestina. Até que esse dia chegue, cabe à esquerda estadunidense conquistar o apoio popular e democratizar o sistema político dos Estados Unidos.













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