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Pobreza AND (preguiça OR desigualdade)

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Há poucos dias, foi publicada uma pesquisa do Datafolha sobre a visão dos brasileiros a respeito da pobreza, associando-na a duas alternativas: a preguiça ou a falta de oportunidades. Poderíamos questionar a tentativa de simplificar a explicação de um fenômeno tão complexo por meio de duas únicas possibilidades, mas vou deixar esse debate de lado.

Reconheço que, mesmo com suas limitações, uma pesquisa como essa pode nos mostrar, com grau suficiente de confiança, um cenário razoável do imaginário brasileiro sobre o assunto. Ademais, ela permite, àqueles que gostam dessas coisas, pensar e refletir infinitamente sobre um fenômeno psicossocial – chatos que somos.

A pesquisa mostrou que 40% dos brasileiros associam a pobreza à “preguiça de pessoas que não querem trabalhar”, enquanto 58% a associa à “falta de oportunidades iguais para que todos possam subir na vida” (o que tratarei a partir de agora como desigualdade, dando um salto semântico para economizar dedos). Já aqui temos uma discussão interessante.

A pesquisa divide a pobreza em duas possíveis causas (novamente dou um salto semântico de associação a causa, pois quem conhece pesquisa científica sabe que não são a mesma coisa): uma próxima do individualismo (a preguiça, fator individual que depende predominantemente da pessoa) e outra próxima do coletivismo (a desigualdade, que compreende a confluência de fatores sociais que extrapolam o controle da pessoa individual) – aqui, individualismo não possui sentido moralista. Essa dualidade é bem conhecida na sociologia e na psicologia social (nenhuma das quais está entre minhas principais áreas de estudo e atuação, portanto, perdoem minha compreensão superficial).

Existem estudos em psicologia social que ponderam sobre a forma como as pessoas atribuem causas a diferentes fenômenos. Há estudos que avaliam os estilos atribucionais em termos de locus de controle interno (quando a pessoa acredita que ela tem condições de influenciar decisivamente o que acontece com ela e com o mundo) – que poderíamos parear à hipótese da preguiça – ou externo (quando a crença é a de que o ambiente é o maior detentor desse poder) – vinculado à hipótese da desigualdade.

Contudo, não devemos incorrer no erro de pensar que um estilo atribucional é mais correto do que o outro. Digo isso porque conheço minha audiência e sei que a maioria de nós aqui tende a pensar que a alternativa da desigualdade é mais razoável. De fato, atribuir a pobreza a um único fator interno é, sem medir palavras, burrice. Ao optarmos pela desigualdade, pelo menos podemos nos refugiar no fato de que esse único termo engloba uma infinidade de fatores associados.

Pois bem, a pesquisa nos mostra que a maior parcela da população ainda atribui a pobreza a um fator mais complexo do que simplesmente a preguiça. Ela faz ainda alguns recortes interessantes. O primeiro deles, de faixa etária, aponta que a juventude é mais propensa a adotar essa explicação. Na faixa de 16 a 24 anos, 74% associam a pobreza à desigualdade e 22% à preguiça.

Já na faixa de 60 anos ou mais, 48% atribuem à desigualdade e 49% à preguiça. Aqui, a diferença é marcante, sinalizando um conflito de gerações. A faixa 60+ contempla aqueles nascidos até os anos 1960, geração conhecida na cultura de língua inglesa como baby boomers, nascidos no pós-Segunda Guerra. Essa geração cresceu imersa na ética do sonho americano e foi criada à base da lógica do self-made man, que inspiram o ideário do sucesso socioeconômico alcançado através do trabalho árduo e incansável, que sem sombra de dúvida levariam à prosperidade. De forma nenhuma eu desprezo o valor do esforço pessoal e de sua importância na busca por uma vida satisfatória.

Contudo, é preciso admitir que o sonho americano foi importado ao Brasil sem tradução adaptada.

Os baby boomers cresceram, reproduziram e incutiram seus ideais a sua prole, que mais ou menos se rebelaram contra os ensinamentos parentais. As décadas passaram e chegamos aos jovens referenciados na pesquisa, de 16 a 24 anos de idade, conhecidos como a Geração Z – nem menciono a Geração Y, coitados, que estão acostumados a ser ignorados.

A Geração Z é conhecida por sua rebeldia contra o mercado de trabalho. São eles que aparecem frequentemente nas notícias como aqueles que não se submetem a condições laborais precárias, que preferem qualidade de vida a status profissional. São eles que muito se revoltam contra a ideia de que o esforço pessoal é o ingrediente decisivo para a prosperidade. Invejo sua coragem! Mas talvez isso não seja só coragem, e também desilusão – algo que eles compartilham com os millennials. Essa juventude se deu conta da armadilha do sonho americano e abriu seus olhos para os inúmeros determinantes da pobreza e da riqueza, que vão além de fatores individuais como o esforço ou a preguiça.

E por falar em mercado de trabalho…

Quanto à ocupação econômica, a pesquisa do Datafolha indica que a ocupação que mais acredita na hipótese da preguiça são os empresários, com uma proporção de 56%. De novo, de modo nenhum eu ignoro o papel do esforço pessoal na busca por melhores condições de vida e sei muito bem quão intensamente trabalham os empreendedores (frequentemente na escala 7×0, como adoram se gabar, tal qual Cristo exibindo suas chagas). Mas convenhamos que a mentalidade do self-made man persiste a todo custo na cultura do empreendedorismo. Cada um escolhe sua ilusão.

Junto a isso, destaco um último recorte da pesquisa, o do tempo. A pesquisa é realizada periodicamente há mais de 10 anos, mostrando uma montanha russa gráfica em relação à hipótese da preguiça. Em 2013 e 2017, os índices foram de 32% e 37%, respectivamente, em favor da preguiça. Em 2017 e 2022, uma queda brusca, 21% e 22%, respectivamente. Em 2026, esse índice quase dobrou, indo a 40%. Por quê? O que aconteceu nesses últimos quatro anos? Aqui, não vou arriscar falar de causas, mas de fatores associados.

Temos visto, nos últimos anos, impulsionada pelas redes sociais, uma nova explosão de discursos de superação, meritocracia e trabalhar até a falha (muitas vezes, cardíaca). Um remake do sonho americano, com legendas mal traduzidas, estrelando o homem auto-feito. O protagonista é o empreendedor de si, que é seu próprio chefe e que acredita que, se ele tiver força de vontade, tudo é possível. Ilusão vendida a um preço alto, monetário, por cursos de mentoria ministrados por gurus do coaching, que têm o intuito de promover o desenvolvimento pessoal.

Mas não é isso que a psicologia faz? Sim, mas de forma técnica e ética. Em nossos consultórios, não constrangemos os pacientes a uivar por sua masculinidade ou a gesticular freneticamente repetindo motes vazios, prometendo com isso a solução de seus problemas. Inclusive, a psicologia chama esse fenômeno de sugestionabilidade, que leva ao aliciamento de pensamentos e emoções por parte de uma figura que exala confiança e autoridade. Existe nesse fenômeno um paradoxo interessante: ao mesmo tempo em que essa lógica dita que o indivíduo tudo pode por si mesmo, ele promove a dependência a esse soberano totêmico, detentor do saber e do poder, dos quais os vassalos esperam partilhar.

Ademais, pudemos notar o raio dessa explosão poucos anos atrás, quando uma das mais notáveis e conhecidas figuras do coaching nacional concorreu à prefeitura de uma grande metrópole brasileira. Pelo menos respiramos aliviados quando percebemos que sua candidatura não foi levada à sério, apesar do engajamento e da visibilidade (provavelmente, seu objetivo real), e que o eminente mentor foi derrotado por uma cadeira, ainda na época dos debates do primeiro turno.

Para finalizar, os resultados da pesquisa indicam um cenário ambivalente. Por um lado, a maior parcela da população é signatária da hipótese da desigualdade, o que demonstra a majoritária capacidade de pensar criticamente sobre a complexidade do assunto. Por outro, o crescimento da crença na preguiça sinaliza aquilo que nossa pimentinha gaúcha, olhando no fundo dos olhos de seus pais, apontando-lhes o dedo acusatório, vocifera: é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem.

Que lição podemos tirar disso? Que devemos escutar aqueles que se rebelam, pois em meio aos seus protestos febris há sempre sinais da renovação que é matéria-prima de uma cultura diversa. Algo que esquecemos com o passar do tempo.

* Adams Friedemann é psicólogo (UFCSPA), Bacharel em Filosofia (PUCRS), Mestre em Psicologia (UFRGS) e membro em formação da Associação Gaepsi.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.





Com Informações: Brasil de Fato

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