Últimas notícias

Pesquisadores da ayahuasca se mobilizam sobre as eleições e assumem voto em Lula

0


Tenho me posicionado politicamente nas redes sociais neste período eleitoral e recebido críticas de pessoas que acreditam que espiritualidade e política não deveriam se misturar, como se a espiritualidade fosse um lugar acima do bem e do mal, protegido das contradições do mundo. Mas como falar de amor, compaixão, cura e conexão com a natureza sem considerar o que acontece com as pessoas, os territórios e as condições de vida ao nosso redor?

Essa discussão mobiliza pesquisadoras e pesquisadores das religiões ayahuasqueiras, das culturas amazônicas e das medicinas tradicionais indígenas, que decidiram tornar público seu posicionamento político diante das eleições brasileiras. Em uma carta, dezenas de profissionais se manifestam em defesa da democracia, da liberdade religiosa, dos povos indígenas e da floresta, declarando abertamente o voto em Lula.

“Não falamos ou escrevemos em nome de nenhum grupo religioso ou instituição, mas sim a partir de nossas pesquisas acadêmicas (em diversas áreas de estudo), junto às comunidades daimistas e ayahuasqueiras de modo geral, indígenas e não indígenas”, explica Fernanda Cougo Mendonça, doutora em Letras: Linguagem e Identidade pela Universidade Federal do Acre e pesquisadora colaboradora da Cátedra Unesco: Águas, Mulheres e Desenvolvimento.

O coletivo também declara seu compromisso ético com as populações humanas e não humanas da floresta, com as plantas professoras, com as Amazônias, seus povos e suas culturas, além da democracia e da liberdade religiosa.

A floresta está em disputa

A preocupação dos pesquisadores envolve o avanço de projetos políticos que ameaçam os territórios indígenas, a biodiversidade e os conhecimentos tradicionais. A carta recorda que, durante o governo de Jair Bolsonaro, nenhuma terra indígena foi homologada e houve omissão diante de invasões provocadas por atividades como o garimpo ilegal.

A pesquisadora Julia Lobato Pinto de Moura, professora da Universidade Federal do Acre, integrante da irmandade do Santo Daime há mais de 21 anos e responsável pela montagem do Memorial da Colônia Cinco Mil, berço do Santo Daime praticado por Sebastião Mota, chama a atenção para uma contradição da expansão das religiões ayahuasqueiras para além da Amazônia.

“A expansão da ayahuasca e do Santo Daime para além das fronteiras amazônicas foi acompanhada por uma relativa elitização e desconexão das práticas culturais com o território, a terra e a floresta”, afirma Julia.

A reflexão ajuda a compreender que a expansão da ayahuasca não garante, por si só, o reconhecimento dos povos indígenas nem o compromisso com a proteção de seus territórios. Diversos grupos, principalmente os que apoiam o bolsonarismo, mostram que é possível participar de cerimônias e incorporar práticas espirituais à própria vida sem estabelecer uma relação efetiva com as comunidades amazônicas, suas lutas e seus conhecimentos.

“É preciso provocar uma reflexão entre aqueles que legitimam discursos de ódio e projetos de ‘desenvolvimento’ para a Amazônia baseados no desmatamento e na destruição”, afirma Julia.

Aline Ferreira Oliveira, doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Centro de Estudos Ameríndios (CEstA/USP), também relaciona a defesa da ayahuasca à proteção dos povos indígenas e dos territórios amazônicos. Para ela, a bebida faz parte de um complexo cultural que se encontra em uma região sob forte pressão da exploração predatória.

“Nos preocupa o avanço de um projeto político aliado a bancadas que praticam a intolerância religiosa ou que ameaçam a floresta e a vida dos povos indígenas. Apoiar a floresta é apoiar os povos que vivem nela”, afirma Aline.

“A ayahuasca conecta culturas. E no Brasil há uma rede rara de cooperação entre povos indígenas, religiões, ciência, Estado e sociedade civil, e é essa rede que faz do país uma referência mundial”, diz.

Segundo Aline, essa construção dependeu da abertura institucional ao diálogo com as religiões ayahuasqueiras e os pesquisadores. Diante dos debates atuais sobre o reconhecimento dos usos espirituais e terapêuticos da bebida, ela defende a continuidade desse processo, com participação indígena, autonomia dos povos tradicionais e incentivo à pesquisa pública.

“Não queremos mudanças para trás, queremos seguir em frente com a pluralidade dos usos, a autonomia dos povos indígenas e o incentivo à pesquisa pública. A carta é um alerta e um convite a esses debates”, conclui.

A pesquisadora Sandra Lucia Goulart, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), também relaciona a defesa da ayahuasca à preservação dos biomas amazônicos e à valorização da ciência brasileira.

Sandra ressalta que a bebida está associada à história de diferentes povos indígenas e de populações ligadas a modos de vida não depredatórios. Ao discutir o cenário eleitoral, ela chama a atenção para as consequências que as propostas políticas podem ter para a pesquisa científica e os direitos dos povos originários.

“As propostas do candidato do PL incluem cortes de investimentos em pesquisas científicas e riscos de impactos ambientais. Os direitos de povos originários e a própria vida de indígenas estão ameaçados”, afirma. “Por isso, escolho votar 13!”

Silêncio também é uma escolha

Alex Queli Tomé, bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor dos livros “Eu contra o sol” e “Coração do mundo: Literatura e Ayahuasca”, também integra a mobilização. Alex relaciona a gravidade do momento eleitoral às ameaças enfrentadas pelos territórios indígenas e à necessidade de defender garantias democráticas.

“Não é exagero afirmar que esta é a eleição mais importante de nossas vidas”, afirma Alex.

O pesquisador chama atenção para a necessidade de um posicionamento firme do movimento ayahuasqueiro diante de um cenário em que os direitos indígenas e a proteção da floresta estão em disputa. O pesquisador também destaca a discussão sobre a regulamentação da bebida, lembrando que as decisões políticas podem afetar diretamente as condições de continuidade das tradições religiosas.

O posicionamento evidencia uma questão que merece ser enfrentada dentro e fora das comunidades ayahuasqueiras. Não basta defender a liberdade de realizar cerimônias, cantar hinário ou manter práticas religiosas se os direitos dos povos indígenas, os territórios de origem dessas tradições e as condições de existência da floresta são tratados como questões secundárias.

A espiritualidade não acontece num espaço isolado da sociedade. Depende de direitos, políticas públicas, reconhecimento cultural e condições materiais para que os conhecimentos sejam preservados e transmitidos. A história da regulamentação da ayahuasca demonstra isso. A conjuntura atual recoloca essa discussão diante de quem participa dessas tradições, de quem as pesquisa e de quem reconhece nas medicinas da floresta muito mais do que uma experiência individual.

A regulamentação da ayahuasca é uma história política

A ayahuasca chegou a ser alvo de proibição no Brasil na década de 1980, e foi a mobilização das comunidades ayahuasqueiras, em diálogo com pesquisadores e instituições públicas, que contribuiu para garantir o reconhecimento de seus usos religiosos. A Resolução nº 1/2010 do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad) faz parte dessa trajetória, construída por pessoas que precisaram recorrer à política institucional para defender suas práticas e sua liberdade de culto.

É justamente por conhecerem essa história e acompanharem de perto as comunidades que esses pesquisadores chamam a atenção para a importância de um posicionamento público. Suas pesquisas e experiências junto às tradições ayahuasqueiras mostram que a liberdade religiosa não está separada das decisões políticas e que direitos conquistados podem voltar a ser questionados.

A expansão da ayahuasca e de outras medicinas tradicionais, somada às denúncias de abusos e à necessidade de mecanismos de proteção, torna o debate ainda mais urgente. É fundamental enfrentar problemas reais sem estigmatizar tradições inteiras e garantir que as próprias comunidades sejam ouvidas na construção das políticas que as afetam.

A recomendação recente do Ministério Público Federal para discutir a atualização da regulamentação coloca essas questões em pauta novamente. Em um cenário de tensões em torno da diversidade religiosa, a ausência de diálogo e de participação social pode abrir espaço para retrocessos.

O cenário atual, porém, traz a preocupação sobre as condições deste diálogo. Integrantes da família Bolsonaro e parlamentares do PL têm defendido pautas associadas à ampliação da influência de valores religiosos cristãos na vida pública. Para comunidades de outras tradições religiosas, esse debate envolve o risco de que suas crenças e práticas sejam deslegitimadas em nome de uma visão única de fé. Discursos que associam religiões de matriz africana e outras manifestações espirituais ao demoníaco, por exemplo, alimentam um ambiente de intolerância que também atinge grupos ayahuasqueiros.

No caso da ayahuasca, existe ainda outra camada de estigma. Além de envolver práticas religiosas e espirituais, sua utilização inclui uma substância que continua cercada de preconceitos e desinformação em boa parte da sociedade. Isso torna especialmente importante que o debate público seja conduzido com conhecimento, responsabilidade e participação das comunidades diretamente envolvidas, sem que os problemas sejam usados para criminalizar tradições inteiras.

É nesse contexto que o posicionamento dos pesquisadores ganha relevância. A defesa da liberdade religiosa não pode depender da religião praticada por quem governa, assim como o reconhecimento de uma tradição não deve significar a desqualificação de outras. Quando o diálogo institucional cede lugar à intolerância e à imposição de uma única visão de mundo, direitos construídos ao longo de décadas ficam sujeitos a novas disputas. A história da ayahuasca mostra que esses direitos foram conquistados coletivamente e que sua continuidade também depende da defesa da democracia, do pluralismo religioso e da participação social.

*Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos, com passagem por alguns dos principais veículos do país. Sua trajetória é marcada pela cobertura de temas ligados à política e aos Direitos Humanos, com ênfase nos últimos 10 anos na causa indígena e nas disputas culturais, políticas e simbólicas em torno das bioculturas e dos psicodélicos. É uma das primeiras jornalistas no Brasil a se especializar na cobertura da cannabis para fins medicinais.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.





Com Informações: Brasil de Fato

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Justiça manda Meta retirar avisos de conteúdo sensível em apoio a Leandro Grass no Instagram

O Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF) determinou que a Meta...

Napoli x Bodo/Glimt: horário e onde assistir ao jogo da Champions League

Napoli e Bodo/Glimt se enfrentam nesta terça-feira (20), às 16h (de Brasília),...

Lula promove ato em Petrolina, município pernambucano onde ele mais perdeu votos nesta eleição

Caravanas de todo o Sertão estão chegando a Juazeiro (BA) e Petrolina...

Local de votação ainda pode mudar; consulte de novo antes de ir à urna

Mesmo que o eleitor tenha consultado o local de votação com antecedência,...