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Partido Republicano recua na Flórida: o que muda na política dos EUA para Cuba?

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Poucas noites eleitorais foram marcadas por uma derrota política tão significativa quanto a sofrida pelo Partido Republicano nas eleições de meio de mandato. O governo de Donald Trump sofreu um verdadeiro colapso: à perda habitual de cadeiras do partido governista na Câmara dos Representantes nesse tipo de eleição — uma tendência que se repetiu em 18 das 20 disputas realizadas desde 1946 — somaram-se a perda do controle do Senado e uma série de derrotas difíceis de imaginar em estados como Texas, Kansas, Ohio, Iowa e Carolina do Sul.

Na Flórida, os resultados acenderam o sinal de alerta: embora os republicanos tenham conseguido vencer, fizeram isso por uma margem apertada. Com um cenário eleitoral muito mais competitivo do que nos últimos anos, os democratas avançaram nas áreas urbanas e em vários condados de maioria latina.

A poucas milhas da Flórida, em Cuba, as eleições foram acompanhadas com particular atenção. A ilha atravessa um dos momentos de maior hostilidade de Washington nos últimos anos: desde janeiro, os Estados Unidos impõem uma política de asfixia energética e intensificaram sua guerra econômica contra o país.

Flórida, um cenário central da política de Washington para Cuba

As dinâmicas da política dos Estados Unidos em relação a Cuba têm na Flórida um de seus principais cenários, explica Alejandra García Elizalde, analista e jornalista internacional cubana, em entrevista ao Brasil de Fato. É lá, afirma, que “vivem e lucram aqueles que fazem da indústria do ódio a Cuba um negócio”.

A analista relaciona a influência desses grupos à herança de figuras que promoveram ações contra a Revolução Cubana. Trata-se da “herança deixada pelos terroristas que foram apadrinhados e protegidos pelos Estados Unidos, como Luis Posada Carriles e Orlando Bosch”. Esses setores têm defendido a derrubada do governo cubano por diferentes meios, desde ações terroristas até o lobby político e econômico contra a ilha.

“Durante décadas, esse estado definiu os rumos das políticas dos Estados Unidos para a ilha, marcados pelo ódio, pelo anticastrismo e pelo anticomunismo. Esses elementos permearam e definiram a estratégia de Trump. A Flórida é um dos principais redutos da ultradireita no continente”, afirma.

As comunidades de origem cubana, venezuelana, colombiana, nicaraguense e haitiana representam mais de 25% da população da Flórida. Esse peso demográfico deu especial relevância eleitoral e midiática às políticas de Washington para a América Latina e o Caribe. “É onde se define boa parte das políticas dos republicanos para a América Latina e o Caribe”, observa.

Nesse contexto, o resultado das eleições representa um revés para um partido que havia consolidado sua hegemonia na Flórida nos últimos anos. Em 2022, Ron DeSantis e Marco Rubio venceram com vantagens de 16 a 19 pontos percentuais. Dois anos depois, Donald Trump venceu no estado por uma vantagem de 13 pontos. Desta vez, porém, os republicanos obtiveram cerca de 50% a 51% dos votos nas disputas pelo governo estadual e pelo Senado, enquanto os democratas chegaram a aproximadamente 48% e 49%.

O recuo também ficou evidente nas eleições para a Câmara dos Representantes. Os deputados republicanos de ultradireita Mario Díaz-Balart, Carlos Giménez e María Elvira Salazar, os três de origem cubana e entre as vozes mais influentes em Washington em defesa do endurecimento das sanções contra Cuba, conseguiram se reeleger, mas por margens muito apertadas. Salazar obteve 50,2% dos votos, contra 49,8% do democrata Eliott Rodríguez no Distrito 27, que inclui boa parte de Miami. A diferença foi tão pequena que os democratas pediram uma recontagem. Díaz-Balart, por sua vez, garantiu a reeleição no Distrito 26 com 49,9% dos votos, contra 49,1% de Nicole Lucklin.

Mudanças na diáspora cubana

Para García Elizalde, esses resultados mostram que “as políticas de ódio contra Cuba já não contam com a mesma simpatia entre a comunidade cubana nos Estados Unidos”. Embora considere que ainda seja cedo para saber se esse recuo se traduzirá em mudanças concretas na política de Washington para a ilha, ela identifica sinais de uma possível transformação na percepção da diáspora.

“É possível que esteja ocorrendo uma mudança na percepção da diáspora latino-americana e, especialmente, da cubana sobre o que está acontecendo com Cuba”, afirma.

Muitos integrantes dessa comunidade são descendentes de cubanos que mantêm familiares na ilha e conhecem de perto as dificuldades enfrentadas pela população. No entanto, encontram cada vez mais obstáculos para ajudá-los, visitá-los e manter esses vínculos. A isso se somam as políticas antimigratórias e as campanhas de ódio e xenofobia contra quem não é estadunidense, que também afetam os próprios cubanos.

A este cenário se agrega a redução dos benefícios migratórios que, durante décadas, favoreceram os cubanos que chegavam aos Estados Unidos. Historicamente, essas políticas garantiam a eles condições privilegiadas e, na prática, abriam as portas do país para quem chegasse por via marítima ou cruzasse a fronteira. A situação começou a mudar durante o primeiro mandato de Trump e se agravou em seu atual governo, quando os cubanos deixaram de receber muitos dos benefícios de que antes desfrutavam. Para García Elizalde, essas mudanças estão alimentando um debate que ainda precisa ser acompanhado de perto.

“É preciso acompanhar de perto o que acontece, sem ser excessivamente otimista, mas mantendo a atenção e tendo em mente que o resultado de ontem na Flórida não foi uma vitória garantida e tranquila para o Partido Republicano nem para esses grupos que defendem uma intervenção em Cuba e pedem fome e sanções contra a ilha”, ressalta.

Uma intervenção militar contra Cuba?

Para além do cenário eleitoral, García Elizalde considera que a determinação de Cuba em defender sua integridade territorial é um dos fatores que poderiam frear uma eventual agressão militar dos Estados Unidos.

“Não acredito que um ataque militar a poucas milhas do território estadunidense seja o verdadeiro interesse de Washington”, afirma. A rejeição de parte da população dos Estados Unidos a uma intervenção, os questionamentos ao aumento dos gastos militares e as consequências econômicas, energéticas e humanas da guerra no Irã são, em sua avaliação, fatores que também pesam em qualquer decisão da Casa Branca.

A isso se soma o fato de que os Estados Unidos sabem que Cuba responderia a um eventual ataque militar. Paralelamente, a analista chama a atenção para as dificuldades de Washington em identificar uma possível sucessão política na ilha.

“Eles fazem tentativas desesperadas de identificar quem poderia suceder o que consideram ser o governo cubano, mas não conseguiram. A CIA está fazendo apelos explícitos e desesperados para tentar recrutar pessoas dispostas a promover uma mudança em Cuba, porque eles próprios não conseguem identificar um possível sucessor”, afirma.

Na avaliação da analista, o cenário continuará marcado pelas pressões econômicas e políticas dos Estados Unidos, diante das quais Cuba manterá uma postura firme de resistência. Por isso, ela não espera uma mudança substancial na política de Washington para a ilha, mesmo após o recuo republicano na Flórida.

“Ainda que não ocorra um confronto militar, acredito que essa política hostil continuará e que nada vai mudar nesse sentido”, conclui.





Com Informações: Brasil de Fato

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