Na Sérvia os estudantes vencem, com um movimento e um partido novo e horizontal, uma eleição contra um governante há anos no poder e inclinado à extrema direita; nos Estados Unidos, enfrentando um movimento renovado de um centro-esquerda que vem de baixo, dificilmente Donald Trump escapará de uma grande derrota eleitoral nas eleições midterms. No Brasil, uma eleição como nunca antes nesse país, e no mundo, levou Lula da Silva pela quarta vez à presidência da República, abrindo novos horizontes, na verdade para toda a América Latina.
Não há dúvida sobre a grandeza de Lula, nem do papel das redes sociais nessa vitória, em que André Janones despontou como uma liderança criativa e decisiva. Mas não se deve exagerar nem uma coisa nem a outra ao escrutinar o que ocorreu. O próprio Lula, com uma humildade incomum, em seus discursos no dia da vitória foi preciso: agradeceu à população, aos jovens, aos idosos, a seus aliados de centro, a sua confiança e, mais, a mobilização em uma eleição que poderia parecer perdida, enquanto o PT e a coordenação de sua campanha se mostravam desnorteados.
Tudo começou com as manifestações dos estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), espontâneas e que arrastaram suas entidades de representação para as ruas, no dia seguinte à vitória de Flavio Bolsonaro no primeiro turno. Foi centelha em palha seca, há muito na espera de chuva. O Brasil entrou em movimento, Janones ativou seu exército, uma massa de militantes se fez do dia para a noite, as redes sociais entraram em ebulição, milhares buscando votos em todas as partes, à sua própria maneira, em casa, nas ruas e nas redes.
Em 2013, depois de anos de política institucional morna, o Brasil voltara a se mobilizar, de forma caótica, com demandas mil, em particular de autonomia política frente a um sistema político fechado, altamente oligarquizado e arrogante. As mobilizações foram gigantes. A esquerda recusou a energia política que se gerava naquele momento. Parte dela se dispersou, outra foi capturada pela direita.
Em 2018, com a esquerda desmoralizada e na defensiva, muitos jovens se lançaram autonomamente à campanha, mas a situação era desesperadora, ao passo que 2022 a viu ser conduzida de cima, chegando-se a uma vitória democrática estreitíssima. Mas o que venho definindo como a “revolta plebeia” de 2013, e o que ela mais profundamente significava, manteve-se no horizonte. Explodiu com rumo agora mais claro em 2026 (até mesmo em parte no bolsonarismo, cuja base não deve ser vista como essencial e exclusivamente antidemocrática, ao contrário de seus dirigentes). Uma mobilização democrática foi avassaladora e emocionante. De quebra, as ideias de “pobre de direita” e “classe média fascista” se evidenciaram como falazes e insignificantes. Basta olhar os mapas eleitorais (a começar pela zona sul do Rio de Janeiro).
A transição à democracia teve em seu centro o MDB, “partido de notáveis com base de massas”, secundado pelos partidos de esquerda – notadamente o PCB – e os movimentos sociais renascentes. As grandes mobilizações dos anos 1970-1980 foram orquestradas em larga medida – sobretudo as maiores – por essas forças organizadas e verticalista, às quais se juntou um PT que nascia querendo-se “pela base”, mas também partido em estilo tradicional. Bem ao contrário de agora, desde 2013. Se os aparelhos políticos seguem em grande medida oligarquizados, como todo o sistema político, ainda que fundamentais em sua função, a emergência de uma massa plebeia, composta de trabalhadores e setores vastos das classes médias, hoje faz política por conta própria, mobilizando-se do seu jeito e nos momentos que crê serem fundamentais e quando encontra ou abre o espaço político.
Os povos originários das Américas e mais além, historicamente igualitários ao menos entre os homens, mantinham e mantém quase sempre estruturas de poder horizontal. Grande guerreiro, Gerônimo foi encarregado pelos apaches na guerra contra o exército dos Estados Unidos de organizar as forças indígenas. Ao final da guerra quis manter sua posição. Foi-lhe recusada essa prerrogativa. Fica assim claro que em momentos decisivos é preciso de comando vertical. Fica também claro, porém, que isso tem prazo de validade. As democracias liberais modernas já têm ademais demasiadas estruturas hierárquicas. Nosso problema é horizontalizá-las, para além do “participacionismo” em que militantes solidários com o governo são os únicos a participar. Janones foi fundamental, mas isso não quer dizer que o trabalho das esquerdas nas redes sociais deva seguir esse modelo vertical de forma regular – um general tem que saber sua hora de intervir e de se retirar, sem repetir Gerônimo. É preciso cultivar a autonomia e a mobilização das grandes massas plebeias, que devem ser ajudadas em seus esforços de auto-organização, sem que se a queira capturar. Está claro também que o modelo de frente democrático da luta contra o regime militar já não cabe. Sem prejuízo do papel das diversas lideranças democráticas, em lugar da luta dos notáveis apoiadas pelas massas plebeias, são estas que devem se mobilizar.
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Lula fala em escutar quando não souber o que fazer e governar de modo diferente. Soa como recurso a mobilização quando impasses se colocarem. Imprescindível, em especial na dura situação que enfrentará, em minoria, frente a uma extrema direita fortalecida. Espera-se também um programa e políticas mais à esquerdaque ponham essa extrema direita e a direita que a ela se aliar na defensiva. Mas isso não pode ser apenas uma receita no estilo de Hugo Chávez para falar e influenciar de cima para baixo. É preciso descobrir como garantir a expressão de uma população que tem seus próprios desejos e desígnios – provocá-los e respeitá-los. No Chile recente isso não funcionou bem. Não estamos, todavia, condenados a errar. Criatividade será daqui por diante vital. Uma nova esquerda começou a surgir nas últimas semanas, um novo ciclo progressista parece se abrir. Que saibamos decifrar e impulsionar seu possível porvir.
*José Maurício Dominguesé Doutor em Sociologia pela London School of Economics and Political Science (LSE), trabalha com teoria social, teoria crítica e sociologia política. Recebeu o prêmio Annelise Maier de Pesquisa da Fundação Alexander von Humboldt (2018-2023). É co-coordenador do Núcleo de Estudos em Teoria social e América Latina (NETSAL) e membro do Observatório Interdisciplinar da Mudança Climática (OIMC) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). É co-coordenador do Grupo de Trabalho de CLACSO em Teoria social y realidad latinoamericana.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do�Brasil de Fato.













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