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Iraque tem governo, mas não tem um Estado que funcione, afirma especialista após retirada dos EUA

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No dia 30 de setembro, as tropas dos Estados Unidos saíram definitivamente do Iraque. O país foi invadido em 2003, durante o governo George W. Bush, sob a alegação falsa de que teria armas de destruição em massa. Isso acontece pouco tempo depois do ataque às Torres Gêmeas, no dia 11 de setembro de 2001, e se conecta a uma narrativa mais ampla dos EUA de “guerra ao terror”.

Outro movimento de saída havia ocorrido em 2011, no governo de Barack Obama. As forças estadunidenses deixaram o território, mas voltaram em 2014, sob o argumento de combate ao Estado Islâmico.

Já a interferência estadunidense na região do Oriente Médio, que inclui o Iraque, é muito anterior. “A política dos Estados Unidos no Iraque, desde os anos 1950, é uma política profundamente anti-povo iraquiano”, afirma Stephanie Brito, coordenadora da Secretaria da Assembleia Internacional dos Povos (AIP), ao BdF Entrevista.

A especialista explica que as sanções mais pesadas começaram nos anos 1990, no contexto da invasão ao Kuwait, e que, desde sempre, o maior sofrimento recai sobre a população. “O povo tem sofrido de mil formas com a política dos Estados Unidos. O fato de eles terem eleições hoje ou não realmente não resume o bem-estar da população e da sua sociedade”, aponta, ao se referir ao pleito realizado no ano passado, em que se elegeram o parlamento e o primeiro-ministro.

“É um país profundamente desestruturado e, fundamentalmente, é difícil imaginar como um país consegue se erguer politicamente quando se criaram tantas divisões, o país foi tão armado, sofreu uma sequência de tantos conflitos, de guerras civis, de uma batalha longa contra o jihadismo”, afirma. “O Iraque tem governo? Tem. Mas tem um Estado que funciona? Não”, resume, ao destacar que não observa um bom caminho para o país nas próximas décadas.

Brito conta que o país é multiétnico, com três grupos: sunitas, xiitas e curdos. Houve um breve período em que o Iraque teve um governo que pensava no bem-estar da população, que nacionalizou o petróleo e podia financiar com esse recurso as políticas públicas. “Era a quinta maior reserva de petróleo do mundo e o governo tinha forte alinhamento com a União Soviética”, afirma, ao destacar que, a partir desse momento, os EUA passaram a ver o Iraque como ameaça.

A especialista conta que os EUA foram o fiador da ascensão de Saddam Hussein e depois de sua queda, que colocou 250 mil militares armados e desempregados em circulação, somado ao contínuo financiamento militar. Essa circulação de armas alimentou o surgimento de milícias e propiciou o surgimento de grupos extremistas, como o Estado Islâmico. “Quando os Estados Unidos invadem, surgem diferentes povos que saem para a rua e se quebram os depósitos de armas da polícia, do exército, então acontece uma o povo fica armado de repente, todo mundo que tinha alguma coisa contra esse governo [de Saddam Hussein]”, explica,

Essa dinâmica colocou o país em guerra civil. “Existem conflitos entre populações no mundo inteiro, mas, quando você arma ambos os lados, você inflama o conflito”, afirma.

Desde a década de 1990, estima-se que mais de um milhão de pessoas tenham morrido nessa série de conflitos no Iraque. Os EUA deixam o país após provocar marcas profundas na população e destruir a economia. “Não conheci até hoje uma pessoa do Iraque que não tenha sofrido uma perda pessoal”, cita. Ela destaca que o petróleo é a única renda possível para o país. “O que implica que tem uma população que não tem outro meio de ganhar a vida senão fazendo guerra. Fazer guerra é uma forma de você conquistar bens, conquistar dinheiro, conquistar espaço. Então, isso vai alimentar o conflito por muitos anos”, observa.

Stephanie Brito também destaca que os EUA tinham dois objetivos com a invasão ao Iraque e nenhum foi cumprido. “O primeiro era a privatização do petróleo. E o segundo era remover o Iraque como um obstáculo geopolítico, tanto para a preservação e ampliação do Estado de Israel, como também para os interesses do Golfo e da Arábia Saudita”, aponta.

Confira a entrevista completa:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.





Com Informações: Brasil de Fato

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