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Interesses maiores tornam protocolos antirracistas da Fifa ‘fadados a não funcionar’, diz escritora

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A proibição da entrada do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan nos Estados Unidos, a revista vexatória de delegações como a do Senegal, o racismo sofrido pelo jogador Kylian Mbappé após o Paraguai ser derrotado pela França, a declaração do técnico belga Rudi Garcia diminuindo seleções africanas e os torcedores argentinos que exibiram a bandeira de Israel para o técnico egípcio Hossam Hassan ficarão marcadas como cenas lamentáveis de racismo na Copa do Mundo 2026.

O atravessamento do racismo no futebol é um debate antigo mas que ganhou força nos últimos anos, não apenas pela eclosão de episódios emblemáticos ocorridos em grandes competições, como por posicionamentos de atletas negros que assumiram a luta antirracista como prioritária, como fez o atleta brasileiro Vini Júnior e o próprio Mbappé.

Na Copa do Mundo, a Fifa chegou a criar um protocolo antirracista dentro de campo, um procedimento que pode ser acionado por jogadores ou membros da comissão técnica ao cruzarem os pulsos formando um “X”. A arbitragem deve paralisar o jogo, anunciar advertência, suspender a partida temporariamente ou, em último caso, encerrar o confronto.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Roberta Pereira da Silva, doutora em estudos do futebol e autora do livro “Campo de Terra, Campo da Vida” (Editora Dandara, 2022), avalia, no entanto, que nada disso funcionou. “A Fifa — e não só a Fifa, outras federações de futebol — vai criando várias ações, vários protocolos fadados a não funcionar”, aponta.

Sobre o caso específico de Mbappé — que é nascido na França, filho de mãe francesa e pai camaronês –, ela explica por que os ataques da senadora paraguaia Celeste Amarilla configuram racismo: “Ela não vai atacar a capacidade de bola dele. Ela vai atacar aquilo que o constitui. Esses ataques são extremamente violentos porque não tem como você deixar de ser o que é”, avalia.

Silva também fala sobre o episódio no jogo entre Egito e Argentina. “O técnico do Egito fez o sinal; não se sabe se ele estava pedindo o protocolo ou se ele estava fazendo o gesto insinuando que o juiz estava roubando para a Argentina. O fato é que ele tomou um cartão amarelo. A Argentina, passando, gera muito mais patrocinadores que o Egito, por exemplo”, comenta. “Não consigo imaginar um jogo de mata-mata da Copa sendo encerrado”, pontua. “O cumprimento do protocolo vai depender dos interesses que envolvem esse jogo.”

“Tem um protocolo da Fifa que são os interesses que vão além do futebol, da festa, do espetáculo”, analisa.

Segundo Roberta Pereira da Silva, as barreiras e preconceitos dentro do futebol vão muito além do racismo propriamente dito. “Esses tipos de violência estão presentes no futebol, porque ele ainda não é acessível a vários tipos de pessoas. Temos pouquíssimos jogadores que se declaram homossexuais, por exemplo. A gente, enquanto mulher, tem dificuldade de acessar os estádios. E o racismo está presente em diversos lugares do futebol”, pondera.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.





Com Informações: Brasil de Fato

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