Enquanto parte do debate global sobre inteligência artificial é marcado por preocupações com desemprego, vigilância e concentração de poder nas mãos das grandes empresas de tecnologia, pesquisas indicam que os chineses estão entre os povos mais otimistas do mundo em relação à nova tecnologia. Para o pesquisador Jeff Xiong, a explicação está menos na tecnologia em si e mais na forma como ela foi incorporada ao desenvolvimento econômico e social do país.
Secretário-geral do Fórum Acadêmico do Sul Global, pesquisador da East China Normal University e autor do livro Além do Vale do Silício: Inteligência Artificial com Características Chinesas, Xiong defende que a forma como a inteligência artificial vem sendo desenvolvida na China ajuda a explicar essa percepção. Em vez de ser apresentada apenas como uma ferramenta de consumo individual ou geração de conteúdo digital, a tecnologia é incorporada a políticas de desenvolvimento econômico, combate à pobreza e modernização de serviços públicos.
Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o pesquisador relatou experiências observadas em Rongjiang, no sudoeste da China, uma das últimas regiões do país a superar a pobreza extrema. Nos últimos anos, moradores passaram a conviver com novas estradas, cobertura de internet, redes 5G e programas de capacitação tecnológica. Mais recentemente, iniciativas voltadas à inteligência artificial começaram a chegar às comunidades locais.
“Os chineses estão entre os povos mais otimistas do mundo em relação à inteligência artificial”, afirma. Segundo ele, essa confiança está diretamente ligada às transformações materiais vividas pela população nas últimas décadas. “Quando o governo afirma que a inteligência artificial será uma ferramenta importante para melhorar suas vidas, elas tendem a acreditar porque já testemunharam transformações concretas anteriormente.”
A percepção descrita por Xiong aparece também em levantamentos internacionais recentes. Pesquisa da consultoria KPMG realizada em 47 países mostrou que os chineses estão entre os povos mais otimistas do mundo em relação à inteligência artificial. Segundo o estudo, 69% dos entrevistados na China afirmaram que os benefícios da tecnologia superam seus riscos, percentual quase duas vezes maior que o registrado nos Estados Unidos.
Outro relatório internacional, o AI Index 2026, produzido pela Universidade de Stanford, aponta que a China figura entre os países com maiores níveis de entusiasmo em relação à inteligência artificial e com expectativas mais positivas sobre seus impactos no trabalho e na vida cotidiana. O estudo também mostra que os chineses demonstram níveis elevados de confiança na capacidade do Estado de regular a tecnologia, em contraste com a desconfiança predominante nos Estados Unidos.
Para Xiong, a explicação também está nas prioridades estabelecidas para o desenvolvimento tecnológico. Em vez de concentrar esforços apenas em aplicações digitais voltadas ao mercado consumidor, a estratégia chinesa busca integrar a inteligência artificial à chamada economia real. “Se observarmos as diretrizes anunciadas pelo governo chinês nos últimos anos, veremos que a prioridade é utilizar a inteligência artificial para fortalecer a economia real”, afirma.
O que a China faz, explica Jeff, vai na contramão do modelo hegemônico nos Estados Unidos. “Se você quer tornar um país mais forte, precisa investir em produção, infraestrutura, empregos, moradia e educação. A inteligência artificial deve servir a esses objetivos”, diz. Na avaliação do pesquisador, é essa combinação entre planejamento estatal, regulação e aplicação prática da tecnologia que ajuda a explicar por que a IA desperta menos desconfiança entre os chineses do que em boa parte do Ocidente.
Esta é a segunda parte da entrevista exclusiva concedida por Jeff Xiong ao Brasil de Fato. Na primeira, o pesquisador discutiu soberania digital, a disputa tecnológica entre China e Estados Unidos e os desafios enfrentados pelos países do Sul Global diante da concentração global de dados e infraestrutura digital.
Leia a entrevista:
Brasil de Fato: Pensando no impacto da inteligência artificial sobre a vida das pessoas, quais são as principais diferenças entre o modelo chinês e o estadunidense? Você acredita que eles são mais parecidos ou mais diferentes?
Jeff Xiong: Essa é uma questão interessante. Há pesquisas indicando que os chineses estão entre os povos mais otimistas do mundo em relação à inteligência artificial. Não sei se todos os números são totalmente precisos, mas a tendência parece verdadeira. Eu mesmo me pergunto por que isso acontece.
Posso compartilhar uma experiência. Faço muitas pesquisas em um condado chamado Rongjiang, no sudoeste da China. Foi uma das últimas regiões do país a superar a pobreza extrema. Ainda é uma região relativamente pobre, com grande presença de minorias étnicas, mas passou por uma transformação profunda nos últimos anos.
Recentemente, o governo local iniciou um programa para popularizar o uso da inteligência artificial. Líderes partidários e gestores públicos foram incentivados a aprender como utilizar essas ferramentas em seu trabalho. Ao mesmo tempo, foram criados programas de educação popular para ensinar trabalhadores e camponeses a usar IA em atividades cotidianas.
As pessoas aprendem, por exemplo, a utilizar ferramentas de IA para obter orientações preliminares sobre problemas de saúde antes de procurar um hospital ou para auxiliar os filhos nos estudos. Passei bastante tempo observando essas iniciativas e tentando entender por que a população não demonstra medo da tecnologia.
Minha conclusão é que isso está relacionado à confiança construída ao longo dos últimos anos. A vida dessas pessoas mudou muito. Elas viram a pobreza desaparecer, receberam estradas, ferrovias, internet, cobertura 5G e novas oportunidades econômicas. Muitos agricultores passaram a vender seus produtos por transmissões ao vivo na internet.
Quando o governo afirma que a inteligência artificial será uma ferramenta importante para melhorar suas vidas, elas tendem a acreditar porque já testemunharam transformações concretas anteriormente.
Ao mesmo tempo, existe regulação. Nos sistemas de IA utilizados para saúde, por exemplo, o usuário recebe avisos explícitos informando que aquilo não constitui diagnóstico médico e que um profissional deve ser consultado em caso de necessidade. Da mesma forma, ferramentas voltadas para educação não são autorizadas simplesmente a fazer a lição de casa da criança. Elas devem ajudar no aprendizado, explicando os conceitos e estimulando o raciocínio.
Essas regras geram custos para as empresas. A DeepSeek, por exemplo, ficou famosa internacionalmente, mas seu principal interesse não é oferecer serviços gratuitos para milhões de usuários. Ela prefere vender modelos e infraestrutura para empresas. Atender o público exige cumprir uma série de regulações e mecanismos de controle que demandam muito trabalho.
Na primeira parte desta entrevista, você afirmou que empresas chinesas operam em um sistema no qual o Estado mantém capacidade de regular o capital privado. Essa lógica também ajuda a explicar a forma como a inteligência artificial está sendo desenvolvida na China?
Sim. Existe outro aspecto importante. Se observarmos as diretrizes anunciadas pelo governo chinês nos últimos anos, veremos que a prioridade é utilizar a inteligência artificial para fortalecer a economia real. O objetivo é apoiar a indústria, a agricultura, a construção civil e outros setores produtivos.
Quando comparo isso com os Estados Unidos, tenho a impressão de que grande parte do investimento está concentrada na produção de conteúdo digital, imagens, vídeos, textos e códigos. Há um enorme foco em aplicações virtuais.
Olho para a bolsa Nasdaq e vejo empresas digitais acumulando valor extraordinário. Mas me pergunto: de que maneira isso melhora concretamente a vida da classe trabalhadora dos EUA?
Na China, a lógica predominante é diferente. Se você quer tornar um país mais forte, precisa investir em produção, infraestrutura, empregos, moradia e educação. A inteligência artificial deve servir a esses objetivos.
Por isso, muitos chineses enxergam a IA com mais otimismo. Eles a veem sendo utilizada em fábricas, obras, fazendas e serviços públicos.
Um dos principais temores em relação à inteligência artificial é o impacto sobre o emprego. Como esse debate aparece na China?
Lembro de uma visita a uma grande obra de construção civil. A empresa havia implantado cerca de 40 tipos diferentes de robôs. Um deles realizava uma tarefa extremamente pesada: dobrar estruturas metálicas usadas em concreto armado. É um trabalho exaustivo, realizado sob temperaturas muito altas e com risco frequente de acidentes.
Uma delegação da África do Sul que visitava o local fez uma pergunta natural: esses robôs não irão substituir trabalhadores?
A resposta da empresa foi interessante. Eles disseram que enfrentavam dificuldade para contratar pessoas para aquele tipo de função. A média de idade dos trabalhadores era de aproximadamente 45 anos e os jovens simplesmente não queriam executar aquele trabalho.
Em vez de substituir pessoas, a estratégia era transferir esses trabalhadores para atividades menos penosas. Alguns passavam por cursos de qualificação para atuar como eletricistas ou em outras funções mais especializadas.
Não estou dizendo que a questão do emprego não exista. Ela existe e é séria. O desemprego juvenil na China atingiu níveis historicamente elevados nos últimos anos. Há desafios reais.
Mas existe uma confiança relativamente grande de que ninguém ficará completamente abandonado. As pessoas acreditam que continuarão tendo acesso a moradia, alimentação, saúde e educação.
Isso está ligado ao processo de erradicação da pobreza. Havia um conjunto de metas conhecido como “duas ausências de preocupação e três garantias”. As duas ausências de preocupação eram alimentação e vestuário. As três garantias eram moradia, educação e saúde.
Esses critérios eram acompanhados de forma muito rigorosa. Funcionários do Partido visitavam regularmente as famílias para verificar as condições de vida. Em alguns casos, chegavam a contar quantas roupas de inverno havia em uma residência. O objetivo era garantir um padrão mínimo de bem-estar para toda a população.
Essa experiência influencia a maneira como muitos chineses encaram a automação. Mesmo quando há preocupação com o emprego, existe a percepção de que o Estado continuará tendo responsabilidades em relação às condições básicas de vida.
Eu tive uma discussão sobre isso com Vijay Prashad certa vez. No fundo, a questão é que talvez não devêssemos considerar o emprego assalariado como a única forma legítima de acesso à renda e aos meios de vida.
Se a tecnologia reduzir a necessidade de trabalho humano em diversas atividades, então também precisaremos discutir novas formas de distribuição de riqueza. Essa é uma questão que ainda está em aberto, mas que inevitavelmente fará parte do debate sobre inteligência artificial.
Queria encerrar falando sobre jornalismo. Como você avalia o impacto atual da inteligência artificial sobre a produção jornalística? E o que imagina para o futuro?
Essa é uma área sobre a qual ainda tenho muitas dúvidas. Por exemplo, não gosto da ideia de apresentadores artificiais substituindo pessoas reais na televisão. Converso bastante sobre isso com colegas da Pan African TV e da Telesur. Vejo cada vez mais exemplos de personagens gerados por inteligência artificial apresentando notícias e, sinceramente, não me parece um caminho positivo.
Por outro lado, também existe um desafio concreto. Se você mantém padrões tradicionais de produção enquanto outras organizações passam a produzir volumes gigantescos de conteúdo usando inteligência artificial, acaba correndo o risco de ser soterrado por esse fluxo.
Ainda não tenho uma resposta definitiva para essa contradição. O que penso é que os meios de comunicação populares e progressistas talvez não devam mais se preocupar em competir com as grandes plataformas em escala. Facebook, Google, TikTok e outras empresas já ocupam praticamente todo o tempo disponível das pessoas. Não existe muito espaço para elas crescerem mais.
Isso significa que qualquer atenção conquistada por um veículo popular já está sendo retirada desse ecossistema dominante. Por isso, nossa tarefa não deveria ser reproduzir a lógica dessas plataformas, mas aumentar nossa capacidade de produzir conteúdo de qualidade.
Historicamente, o principal problema dos veículos progressistas nunca foi a falta de temas ou de conexão com a realidade. O problema sempre foi a falta de recursos.
A Pan African TV tem equipes pequenas. Muitos veículos populares na América Latina têm equipes pequenas. Nenhum deles possui os recursos da BBC ou da CNN. Nesse contexto, a inteligência artificial pode representar uma oportunidade.
A questão não é substituir jornalistas. A questão é utilizar essas ferramentas para ampliar nossa capacidade produtiva. Se uma redação consegue produzir cinco vezes mais conteúdo com a mesma equipe e mantendo a qualidade editorial, isso representa uma transformação importante.
Os meios populares possuem uma vantagem que grandes conglomerados frequentemente não têm: eles conhecem as pessoas sobre as quais estão falando.
Quando uma grande rede internacional cobre um acontecimento na África ou na América Latina, muitas vezes ela não possui vínculos reais com as comunidades envolvidas. Já os veículos populares conhecem os trabalhadores, os camponeses, os movimentos populares e os territórios.
O problema não é obter informação. O problema é transformar essa informação em conteúdo na velocidade necessária. A inteligência artificial pode ajudar justamente nisso.
Você poderia dar um exemplo?
Claro. Uma colega da Pan African TV participou de uma formação conosco durante dez dias. Quando voltou para casa, criou seu próprio sistema de produção jornalística usando inteligência artificial.
O funcionamento era relativamente simples. Pela manhã, ela encontrava uma notícia relevante e inseria o link em seu sistema. A inteligência artificial gerava um resumo e sugeria sete perguntas que deveriam ser respondidas para aprofundar aquele tema.
Com essa lista em mãos, ela entrava em contato com especialistas e entrevistava diferentes fontes. Depois transcrevia as conversas e alimentava novamente o sistema.
A partir desse material, a ferramenta ajudava a estruturar uma análise mais aprofundada. Em poucas horas era possível produzir um comentário de alto nível sobre um acontecimento recente.
O mais interessante é que ela desenvolveu tudo isso sozinha. Não foi necessário contratar uma equipe de programadores. O sistema praticamente não exigiu código tradicional. Foi construído principalmente por meio de instruções bem elaboradas para os modelos de inteligência artificial.
É esse tipo de possibilidade que me parece revolucionária. Pense, por exemplo, em rádios comunitárias na Tanzânia. Muitas pessoas consomem informação principalmente por áudio. Um sistema desses poderia transformar rapidamente textos em roteiros para rádio e distribuir conteúdo de qualidade para audiências muito amplas.
Isso permitiria que meios populares oferecessem níveis de produção comparáveis aos das grandes corporações de mídia, mas mantendo algo que elas frequentemente não possuem: proximidade com a população. Essa me parece uma frente importante de disputa.
Então o desafio não é apenas usar a inteligência artificial, mas aprender a construir sistemas próprios?
Exatamente. Durante muito tempo, sempre que uma organização precisava de um sistema digital, dependia de programadores, empresas de software ou fornecedores externos.
A inteligência artificial muda parcialmente essa lógica. Hoje, jornalistas, pesquisadores e comunicadores podem construir muitas ferramentas por conta própria. Em alguns casos, nem sequer é necessário escrever código. Basta aprender a formular corretamente as instruções e estruturar os fluxos de trabalho.
Por isso acredito que todos os jornalistas deveriam aprender não apenas a utilizar ferramentas de IA, mas a criar sistemas adaptados às suas próprias necessidades. Isso é especialmente importante para os meios populares.
Ninguém vai construir essas soluções para nós. E, quando alguém oferece fazê-lo, normalmente cobra valores que muitas organizações não conseguem pagar.
Vejo aí uma transformação profunda. Se cada redação conseguir ampliar significativamente sua capacidade de produção por meio dessas ferramentas, estaremos diante de uma mudança muito importante para o campo da comunicação popular.
Você também acabou de lançar no Brasil um livro sobre inteligência artificial. Como surgiu esse projeto?
Na verdade, ele não começou como um livro. Tudo começou como uma coluna publicada no Substack.
Eu percebia que a China estava acumulando muitas experiências concretas de utilização da inteligência artificial em áreas como indústria, agricultura, serviços públicos e desenvolvimento local. Eram histórias interessantes, especialmente aquelas que aconteciam em cidades pequenas e comunidades rurais, mas que quase nunca apareciam na cobertura internacional.
Mesmo dentro da China, esses relatos raramente recebiam atenção. Nem mesmo os grandes meios de comunicação chineses costumam contar essas histórias com profundidade.
Ao mesmo tempo, eu sabia que muitos amigos no Brasil e em outros países do Sul Global teriam interesse em conhecê-las. Foi daí que surgiu a ideia da coluna.
Passei a escrever pequenos relatos sobre experiências concretas. Não eram textos teóricos nem discussões abstratas sobre políticas públicas. Eram histórias simples mostrando como a inteligência artificial estava sendo utilizada por pessoas comuns.
Com o tempo, acumulei cerca de quarenta textos. Então surgiu a proposta de reunir parte desse material em um livro. A edição atual reúne dezesseis histórias.
Há capítulos sobre empresas de construção civil que utilizam robôs em atividades perigosas, experiências na agricultura, uso de drones, aplicações industriais e também relatos sobre como o Estado regula a inteligência artificial para garantir que ela beneficie a população.
No fundo, é um livro sobre usos concretos da tecnologia. Meu objetivo sempre foi mostrar como essas ferramentas podem melhorar a vida das pessoas e não apenas gerar lucros ou substituir trabalhadores.
Fico muito feliz ao ver esse material sendo traduzido para o português e para o espanhol. É uma grande honra para mim.












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