“Querer ser livre é também querer livre os outros”. Essa frase da filósofa feminista Simone de Beauvoirinspira o trabalho do Grupo Marias. A associação sem fins lucrativos tem como foco oferecer apoio e formação para mulheres vítimas de violência de gênero ou chefes de famílias em situação de vulnerabilidade social.
A iniciativa começou em 2021, durante a pandemia de coronavírus, quando as taxas de violência contra a mulher subiram de patamar. Na escola onde leciona, em Viamão, a professora municipal Rosana Kasper via os números crescentes se materializarem no relato assustado de alunos, que temiam pelas vidas das mães mesmo dentro de casa.
Angustiada com a escalada do medo, ela decidiu criar um grupo que pudesse levar acolhimento. As primeiras voluntárias eram mães dos alunos de Rosana, que começaram a dar lições de artesanato para outras mulheres. Depois juntaram-se à empreitada da associação outras profissionais, como psicólogas, advogadas e cozinheiras. “Não era só fome que elas sentiam. A gente pensava: o que vamos fazer com essas mulheres, para que a vida delas melhore? Foi uma fase bem difícil”, lembra Rosana.
A iniciativa deu tão certo que a demanda aumentou nos anos seguintes. Com suporte financeiro obtido por meio de doações e de rifas comercializadas na comunidade, foi possível alugar uma casa, localizada na Restinga, onde o grupo se reúne desde então. No local, acontecem rodas de conversa e os cursos oferecidos pelo Marias.
O trabalho ainda integra a Rede Conta Comigo, criado pela Coordenadoria dos Direitos da Mulher da Secretaria de Desenvolvimento Social de Porto Alegre, em uma articulação intersetorial que mobiliza diversos setores municipais, estaduais, federais e da sociedade civil para acolher e atender mulheres em situação de violência nas áreas da psicologia, serviço social e jurídico.
Hoje, no Marias, são 27 voluntárias que se revezam em serviços de assistência social, artesanato, comunicação, cozinha, educação e orientação jurídica e psicológica. É possível recorrer diretamente ao grupo indo até a sede para os encontros, buscando suporte pelo telefone 51 9939-6005, pelas redes sociais ou pelo portal da entidade.
O encaminhamento para o grupo também é realizado pela assistência social e pela Patrulha Maria da Penha. Depois que as vítimas recebem proteção policial para evitar novas agressões, elas encontram, na sede, outro tipo de apoio, para que possam retomar a autonomia e construir uma nova vida longe da violência de gênero.
Nesses casos, Rosana exemplifica o tipo de suporte que o grupo oferece: “Quando a mulher entra com medida protetiva ela sai com muitas dúvidas e é como se sofresse um processo de choque diante da realidade. Porque ela estava com as crianças quando sofreu violência física ou porque estava muito machucada. Então ela recebe as orientações, mas está desestruturada emocionalmente e nem consegue reter metade das informações que ouve quando recebe a medida protetiva. Então damos essa orientação para que ela possa acessar as políticas públicas e até como obter abrigo”, ilustra.
A professora ressalta que a criação de uma rede incentivada pela associação e abraçada pela comunidade possibilita a quebra do isolamento que é característico de situações de violência de gênero. “Muitas dessas mulheres perderam o vínculo com seu círculo familiar e de amigas. Elas estão abandonadas ao agressor. Então, quando elas encontram uma rede de apoio, elas começam a respirar novamente”, explica Rosana.
“O grupo é de acolhimento, orientação e geração de renda. E ainda temos uma cozinha solidária, que apoia aquelas que estão em situação de vulnerabilidade. Então não é só uma oficina de artesanato que a gente oferece, tem apoio ao empreendedorismo, apoio motivacional e emocional das psicólogas. Todo esse trabalho conjunto faz com que essa mulher tenha autonomia. Porque às vezes ela não acredita mais nela mesma. A autoestima geralmente é destruída pelo agressor”, acrescenta Rosana.
Experiência para empoderar outras mulheres
Para oferecer o serviço gratuito, o Grupo Marias conta com voluntárias, que repassam formação e mão de obra. Uma delas é a líder de cozinha Angela Portela. Ela conta que chegou ao grupo por recomendação da irmã, que era vítima de violência. “Ela vivia em cárcere privado. Ela apanhava e tudo de ruim que se possa imaginar que aconteça em situações como essa ela enfrentou. E apesar de ter ajuda, ela não conseguia sair dessa situação. Foi com o Grupo Marias que ela teve apoio de advogada e psicóloga e encaminhamento para ter um lugar onde morar para não ter mais de passar por aquele ciclo”, lembra. “Ela me convidou para fazer um curso e, mesmo morando na rua do lado, eu não ia, porque tinha depressão. Mas eu faço crochê e um dia resolvi me inscrever para o artesanato. Eu lembro que fui recebida com um sorrisão e gostei muito do curso”, conta Angela.
No decorrer do trabalho no Grupo Marias, a fundadora Rosana Kasper percebeu como a violência oferecia riscos aos estudantes e às suas famílias, mas também retirava das mulheres a oportunidade de ter a independência financeira e até mesmo o gosto pela vida. A saída era investir em formações e palestras que mostram que é possível superar a violência.
Depois de conquistarem um espaço no mercado de trabalho, muitas das egressas dos cursos do Marias usam o que aprendem para ajudar outras mulheres, como na frase de Simone de Beauvoir citada no início da reportagem. “Temos um número muito expressivo de voluntárias que já foram acolhidas no grupo. Hoje o apoio que elas oferecem faz com que outras mulheres possam conseguir melhorar os seus caminhos”, celebra a professora.
É o caso de Angela, que hoje atua na cozinha solidária do projeto e descreve com emoção como passou de beneficiária a voluntária. “Eu era ajudada e agora eu vou ajudar? Foi muito importante essa mudança para a minha vida”, reforça. Sobre o trabalho que oferece a outras mulheres, Angela reforça que é importante “transformar amor em comida”. E reforça: “Não é só de comida que elas precisam, elas precisam de escuta e carinho”.
O Grupo Marias também oferece palestras para escolas e empresas sobre temas como direitos das mulheres e combate ao assédio. “É importante as empresas estarem atentas, porque hoje temos vítimas silenciadas, assim como agressores sorridentes. E os impactos econômicos são gigantes. As pessoas não se dão conta ainda de quanto trabalhar com o respeito e a valorização da mulher é importante para as coisas mudarem”, defende Rosana.













Deixe um comentário