O governo federal conseguiu forçar o avanço da pauta do fim da escala 6×1no Congresso, apesar de todas as manobras feitas pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para travar e atrasar o debate. O presidente Lula apresentou um projeto de lei com regime de urgência sobre o tema e a Câmara dos Deputados deve votar a proposta nesta terça-feira (16).
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Francisco Fonseca, cientista político e professor de Ciência Política na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e na Fundação Getúlio Vargas (FGV), avalia que o governo conseguiu jogar o ônus da demora a quem é de direito: o Congresso Nacional. “Vamos lembrar que a Câmara dos Deputados também era refratária ao fim da escala 6×1, até porque é formada majoritariamente por partidos políticos conservadores, que são muito mais vinculados à elite do que aos trabalhadores. Essa maioria de parlamentares acabou sendo obrigada a votar favoravelmente ao fim da escala 6×1, porque o presidente Lula mandou um projeto que mobiliza fortemente o país e os trabalhadores, que não aguentam mais essa jornada. Lembrando que o Brasil aprovou a redução para 40 horas ainda em 1988. E as ruas acabaram emparedando o Congresso”, afirma. “Lula tem um poder de agenda. Se a escala 6×1 for aprovada, será obviamente muito positivo [para Lula]”, destaca.
Enquanto isso, Alcolumbre tem dado guarida à narrativa conservadora de que o Brasil vai quebrar. “Sempre foi essa cantilena, essa retórica de que direitos sociais prejudicam a economia. Na França, a jornada de trabalho é de 33 horas. E essa pauta está na agenda brasileira há décadas”, destaca Fonseca.
Para Francisco Fonseca, toda a mobilização da oposição no Senado tem sido articulada por Alcolumbre como uma forma de se vingar do governo federal e até mesmo criar obstáculos à reeleição de Lula. “Mais uma vez o Senado, quase como um revide, aprovou pautas-bombas que são bilionárias para o agronegócio e que já tem muito dinheiro. É uma tentativa de inviabilizar o atual e o futuro governo Lula. É uma perspectiva de vingança”, diz. Ele cita o fim do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil como um dos incômodos da oposição com o governo federal. “Então é um revide, quase uma vingança política dessas pautas-bombas que precisam ser desmontadas, porque senão inviabilizam o governo”, critica.
“É curioso, porque eles vivem falando em responsabilidade fiscal, mas estão sendo profundamente irresponsáveis. Dizem que a escala 6×1 vai quebrar a economia, mas aprovam R$ 111 bilhões ao ano no orçamento para beneficiar o agronegócio. E não se fala em responsabilidade fiscal. “Então, são dois pesos, duas medidas”, critica.
Sobre as condições para a continuidade da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto, Fonseca acredita que ainda é cedo para cravar qualquer cenário, mas que observa o filho mais velho do ex-presidente cada vez mais enfraquecido. “O Flávio Bolsonaro, assim como sua família, tem um telhado de vidro enorme. E agora vieram à tona as relações umbilicais com Daniel Vorcaro. Eu não cravaria que Flávio Bolsonaro será o candidato mais competitivo da direita. Há uma intensa disputa no seio da extrema direita no Brasil. Mas, de qualquer forma, sendo ele ou não, a direita no Brasil e a direita extremada têm bases nas elites e têm bases sociais. E isso é um dado importante. Então, independentemente de quem seja o candidato, o fato é que a direita tem base social. Então é muito possível que haja um segundo turno”, analisa o cientista político.
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