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Extrema direita alemã seduziu população decepcionada com a política do país para conquistar vitória inédita

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O que era uma ideia dentro do metiê alemão ganhou forma e força. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), uma sigla criada há pouco mais de dez anos e habitualmente entendida pela inteligência do Estado alemão como um grupo perigoso de extrema direita, foi o principal vencedor nas eleições regionais no estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país, no último final de semana.

A sigla obteve 44% dos votos, o que a põe como principal força do parlamento estadual, responsável por escolher o próximo nome que irá governar o estado. Para obter maioria, terá que enfrentar uma resistência mais que explícita de praticamente todas as forças políticas da Alemanha: uma espécie de “cordão sanitário”, costurado por partidos que vão da esquerda à direita, e que é usado como forma de isolar ao máximo a AfD. Nada de acordos ou apoios, por exemplo.�

Por décadas, a cena política da Alemanha rechaçou a mera ideia de que qualquer sigla de extrema direita pudesse governar um estado da federação alemã. Tanto na Alemanha dividida, que prevaleceu do pós-Segunda Guerra Mundial até a queda do Muro de Berlim, até a Alemanha unificada que se construiu do início dos anos 1990 para cá, o tema mexia e segue mexendo com feridas históricas da sociedade alemã, que vê no nazismo do século passado algo além do limite humanitário, que não deve ser ultrapassado.�

Até o momento, a AfD venceu 39 das 83 cadeiras do Legislativo local. Com uma eventual abstenção da BSW, os votos dos parlamentares da extrema direita seriam suficientes para escolher o novo governo. Quem se apresentou como o nome mais forte ao cargo foi o candidato da AfD, Ultich Siegmund.

O que levou um antigo estado da Alemanha Oriental a escolher, neste momento histórico, uma sigla da direita mais radical a governá-lo? A resposta não é simples, como nada é exatamente simples em um país marcado pela unificação tardia (consolidada somente em 1871, sob liderança de Otto von Bismarck), pela dolorosa derrota na Primeira Guerra Mundial, pela ascensão e queda do nazismo, pela capacidade de reconstrução e por inúmeras divisões internas.

O tema foi pauta do mais recente episódio do podcast O Estrangeiro, disponível no canal do Brasil de Fato no YouTube. Confira o videocast completo:

Para o jornalista e historiador Rafael Targino, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o processo histórico resultante da mais recente unificação ajuda a explicar a vitória da AfD.

“O processo de reestruturação da Alemanha, com a queda do Muro, criou uma região que foi efetivamente incorporada. Vivia-se em um sistema que provia emprego, moradia, educação e saúde. Um sistema fechado que sofria críticas, mas que dava garantias à população. E aí houve a reunificação com o capitalismo. Isso altera a dinâmica das vidas das pessoas”, contextualiza, em conversa com o Brasil de Fato.�

Targino ressalta que atribuir a vitória da AfD somente a raízes históricas seria simplório, sendo necessário entender a dinâmica atual. “O partido tem conseguido capturar um descontentamento que, hoje, é muito forte na Alemanha e, em alguma medida, no resto do mundo. É um descontentamento com o próprio sistema político.

O nome da sigla é sugestivo: Alternativa para a Alemanha. E a situação começa a pender ao partido quando se tem um princípio de desaceleração econômica na Alemanha, a questão da guerra na Ucrânia e o aumento dos custos de vida. “Então, o que era um partido que, no começo, tinha foco muito grande na migração, hoje é um partido que diz apresentar uma alternativa ao sistema político-econômico”, pondera o historiador.

Significados da vitória da AfD

Um dos dilemas da sociedade alemã reside no fato de que a AfD não tem crescido à toa, mas tem sido capaz de captar eleitores não apenas que votavam na direita, mas em siglas de esquerda. De acordo com um levantamento feito pela Infratest Dimap, 67% dos eleitores afirmaram que a AfD teria compreendido melhor que os demais partidos o fato de que a população em Saxônia-Anhalt já não se sentiria segura.

Junto a isso, mais de 50% do eleitorado também acha que a AfD estaria mais próxima das preocupações da população do que outros partidos políticos alemães. A preferência é ainda maior entre os mais jovens, que raramente apontam os democratas-cristãos ou os social-democratas (duas das siglas que compuseram o establishment da política alemã dos últimos anos) como capazes de dar respostas satisfatórias aos desafios para o futuro do país.�

“O erro está simplesmente no fato de que não se faz política para seus eleitores [da AfD] e, ao erguer um ‘cordão sanitário’, elimina-se a própria oportunidade de reconquistar essas pessoas decepcionadas por meio de conversas e atividades conjuntas. Nem todos os eleitores da AfD são de extrema direita ou fascistas. Pelo contrário, são cidadãos que estão irritados com o sistema e com a forma como essa política é conduzida. Por sua vez, o BSW reconheceu isso e, por essa razão, é marginalizado pelos outros partidos. O correto seria encontrar, juntamente com o BSW, um caminho para realizar uma política em benefício das pessoas comuns”, pondera ao Brasil de Fato o analista político alemão Carsten Hanke, ex-membro do Die Linke e observador político independente.�

Para a esquerda alemã, segundo Hanke, falta uma força política forte e unida, “que defenda os direitos da classe trabalhadora, dos socialmente vulneráveis e das pessoas desfavorecidas, e que também mantenha o internacionalismo tão necessário entre todos os movimentos progressistas”.�

Curiosamente, a sigla mais à esquerda do parlamento de Saxônia-Anhalt amplia a gravidade do cenário alemão. Conhecida como Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW), a legenda já sinalizou que pode viabilizar as pretensões da AfD de governar o estado, abstendo-se de votar na escolha (feita por maioria simples) do próximo governo.

A sigla BSW foi criada por Sahra Wagenknecht, ex-membro do Parlamento Europeu, resultado da insatisfação da própria Sahra com a sigla A Esquerda (Die Linke), criada em 2007 por conta da fusão do Partido Socialismo Democrático (PDS) e da Alternativa Eleitoral para o Trabalho e Justiça Social (WASG). Desde então, a BSW vem defendendo não apenas a necessidade de proteção social e de maior presença do Estado alemão na economia do país, mas é crítica às políticas migratórias e às pautas identitárias. A BSW, assim como a AfD, demanda que o país deixe de enviar recursos para a Ucrânia na guerra com a Rússia, por exemplo.�

Para o caso da eleição em Saxônia-Anhalt, a BSW começou defendendo que a melhor solução seria a composição de um governo “suprapartidário”, que seria capaz de dialogar com as diferentes siglas. Diante da impossibilidade da proposta, a sigla admitiu que deve se abster na escolha do novo chefe de governo, abrindo espaço para a chegada definitiva da AfD ao poder.�

“Ao se abster na votação para o presidente do governo estadual em relação à AfD, o BSW se torna culpado pelo fortalecimento do fascismo”, sintetiza Hanke. O analista problematiza o cordão sanitário erguido contra a AfD, reconhecendo a gravidade da ascensão da extrema direita no país, mas apontando que é necessário compreender o que tem levado parte da sociedade alemã a aderir às pautas da sigla, para que seja possível enfrentar esse processo.

O impasse alemão

Não é de agora que a Alemanha, conhecida pela indústria vigorosa, enfrenta problemas econômicos. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) alemão não avançou mais do que 0,2%, após cair 0,5% em 2024 e 0,9% em 2023. Nem o tímido crescimento do ano passado pode ser tão comemorado na principal economia da Europa: no último mês de julho, as exportações do país caíram pela primeira vez em cinco meses, indicando que a recuperação econômica alemã pode perder fôlego.�

Como resultado de tamanha crise, não são poucas as empresas que passaram a decretar falência ou fechar fábricas e pontos de comércio, piorando o quadro de desemprego. Segundo dados do Instituto Leibniz de Pesquisa Econômica de Halle (IWN), a taxa de insolvência entre sociedades de pessoas e sociedades de capital no país, em junho, foi 80% maior do que a média registrada para o mês de junho entre 2016 e 2019, no período imediatamente anterior à pandemia de Covid-19.�

No país europeu, essas duas categorias de empresas são responsáveis por cerca de 90% dos empregos afetados por insolvências e por quase todo o crédito envolvido em processos dessa natureza. O mesmo instituto mostrou que o número de insolvências por lá, em 2025, foi o mais alto das últimas duas décadas, totalizando 17,6 mil casos. Só no setor industrial, foram 11 mil empresas que encerraram as atividades no ano passado.�

Cenários de crise como esse costumam afetar as populações dos estados do leste alemão. A reunificação, grosso modo, fez com que parte importante da população do leste acabasse se mudando para o oeste. Muito embora os estados da antiga República Democrática Alemã representem pouco mais de um terço do atual território do país, a população do leste não passa de 15% de toda a população alemã.

Por lá, o alastramento do modelo econômico liberal não suplantou as desigualdades sociais. Privatizações generalizadas emperraram as promessas feitas no início dos anos 1990. E aquilo que a conformação liberal do período prometeu ficou longe de ser cumprido.

“A particularidade na região da antiga RDA está no fato de que justamente esta minha geração, com o passado da RDA, e seus filhos foram os primeiros a experimentar como foram atraídos para o sistema capitalista por meio de falsas promessas”, diz ao Brasil de Fato o analista político alemão Carsten Hanke, ex-membro do Die Linke e observador político independente.

Nascido nos anos 1960, em Rostock, Hanke destaca que o direito à educação e atendimento médico gratuitos era uma marca da outrora Alemanha comunista, e que o país transitava entre os dez mais industrializados do mundo, apesar das sanções ocidentais.

O que esperar?

Para o futuro, restará saber se a vitória do último final de semana levará a AfD a voos ainda mais altos. E como a sociedade alemã poderá se organizar de modo a evitar a repetição da história. Ao comentar o resultado das urnas, o chanceler Friedrich Merz se disse “profundamente chocado” e acusou a AfD de promover “limpeza étnica”.

Para Rafael Targino, é improvável que os partidos com maior musculatura política passem a cooperar com a AfD. Ainda assim, segundo o historiador, o resultado do último final de semana pode ter sido “um aperitivo do que pode acontecer daqui em diante”.�

Os recados à Europa, como um todo, também foram dados. O premiê espanhol, Pedro Sánchez, definiu o resultado como “um alerta de que a ameaça da extrema direita, graças em parte à rendição da direita tradicional, está ganhando terreno na Europa e no mundo”. Enquanto isso, países como a própria Espanha, além da Itália e da França, estão se preparando para eleições em 2027.

Na França, a sigla de extrema direita Reunião Nacional (RN), capitaneada por Marine Le Pen, aparece como favorita para as eleições presidenciais de abril do ano que vem. De nanico político à principal ameaça à institucionalidade democrática alemã, a AfD, misturando passado e presente, pode ter deslocado o eixo político europeu da atualidade.





Com Informações: Brasil de Fato

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