Os Estados Unidos completam 250 anos de independência passando por uma série de transformações. Elas envolvem aspectos políticos, sociais e, especialmente, econômicos.
O país não habituado com altos índices inflacionários chegou a ver os preços dispararem 9,1% em junho de 2022, como decorrência da pandemia e outros aspectos de demanda.
Neste ano, a inflação anual é de 4,2% até o mês de maio – outro valor inusual para os consumidores e mais de dois pontos percentuais acima da meta perseguida pelo Federal Reserve, o Banco Central norte-americano.
Só que dessa vez, a questão envolve, sobretudo, duas mudanças de estratégia da Casa Branca – que distanciam, também, o país de preceitos da sua fundação.
“As ações da administração de Trump, particularmente as tarifas e a guerra, puxaram a inflação na direção errada. Então, acho que as pessoas seguirão sofrendo com o custo de vida”, disse à CNN Brasil o ex-conselheiro econômico da Casa Branca durante o mandato de Joe Biden, Jared Bernstein.
Uma guerra comercial: o tarifaço
Desde o dia 2 de abril de 2025, batizado pelo presidente Donald Trump como “Dia da Libertação”, a guerra comercial inaugurada com o tarifaço refez a forma como os EUA comercializam com o resto do mundo.
Desde a campanha presidencial, Trump enfatizava em seus comícios como “amava” a palavra “tarifas”. A promessa eleitoral do republicano fazia parte de uma estratégia para fortalecer a economia norte-americana em duas pontas.
De um lado, buscava trazer investimentos para revitalizar a indústria do país.
“Os investimentos não aumentaram, as grandes indústrias não investiram lá nos Estados Unidos e não vão investir porque precisam de estabilidade de longo prazo”, observa Welber Barral, árbitro da OMC (Organização Mundial de Comércio) e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil.
Por outro, a intenção era de reduzir o déficit da balança comercial dos EUA.
“Ele já existe há muitas décadas. Não é um tema que vai ser resolvido agora e não foi resolvido. Na realidade, mesmo com as medidas do Trump, o déficit continua o mesmo desde o ano passado”, pontua o conselheiro e sócio fundador da BMJ.
Em 2024, o déficit comercial dos EUA foi de US$ 918,4 bilhões, uma alta de US$ 133,5 bilhões – ou 17% – ante 2023, segundo os dados do BEA (Departamento de Análise Econômica) e do Departamento do Censo dos EUA. Já em 2025, o resultado foi marginalmente melhor: déficit de US$ 901,5 bilhões.
Após retornar à Casa Branca, Trump solicitou uma série de estudos para avaliar o que chamava de desequilíbrio comercial e relações injustas entre os EUA e seus parceiros comerciais.
No dia 2 de abril, o presidente dos EUA atribuiu uma série de “tarifas recíprocas” a seus aliados, além de alíquotas retaliatórias para a China, que escalou a tensão comercial; e outras para casos específicos como a de 50% aplicada contra o Brasil.
Com cobranças diretas a aliados, o republicano impôs suas taxas de importação e retirou o país de tratados de livre comércio – pressionando os preços nas gôndolas.
“Os Estados Unidos vão demorar muitas décadas agora para recuperar a confiança que perderam, não só por conta das medidas imprevistas, mas também porque violaram claramente alguns acordos comerciais”, conclui o ex-secretário de Comércio Exterior.
A tensão comercial continuou mesmo após a Suprema Corte dos Estados Unidos declarar ilegal o tarifaço de Trump, que tentou buscar suporte em outras partes da legislação norte-americana para reviver algumas de suas tarifas.
Com a guerra comercial do republicano, além de violar acordos da própria OMC, Barral cita, principalmente, tratados que o próprio Trump havia assinado num primeiro momento com o México e Canadá, e que ele mesmo acabou de anunciar que não vai continuar, depois de uma tentativa de renegociação.
Os EUA se recusaram a renovar o USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá) em sua forma atual durante a revisão conjunta realizada no dia 1º de julho.
Ainda assim, o governo norte-americano afirmou que continuará negociando com os vizinhos para corrigir o que considera “deficiências” do acordo e reduzir os déficits comerciais com os dois países. Paralelamente, também foi confirmada uma terceira rodada de negociações bilaterais com o México na semana de 20 de julho.
Outra guerra, desta vez contra o Irã, e o impacto nos preços
Voltando para o final de fevereiro de 2026, o conflito do Oriente Médio resultou em meses de fechamento no Estreito de Ormuz, gerando uma disparada nos preços do petróleo e dos combustíveis.
No auge dos bombardeios, o galão da gasolina ultrapassou os US$ 5 em alguns estados, segundo um levantamento da CNN Internacional.
“É uma administração americana muito incomum, para dizer o mínimo. Ele iniciou uma guerra comercial e agora uma guerra contra o Irã, o que alterou os mercados. As tarifas, a guerra, são inflacionárias. E têm muito mais a ver com o estresse de curto prazo que as famílias americanas estão enfrentando em relação à acessibilidade”, observa Bernstein.
“Normalmente, no Dia da Independência, as pessoas comem cachorro-quente, hambúrguer e outras coisas, fazem um churrasco. E esses preços subiram cerca de 12% a 13% em um ano. Parte disso se deve às tarifas, especialmente as tarifas sobre alimentos. Mas a guerra aumentou os preços da energia, principalmente o da gasolina”, pontua.
Essa combinação de fatores gera sinais mistos sobre a direção que a economia norte-americana está seguindo no curto prazo.
A persistência da inflação acompanha um crescimento ainda forte, mas, ao mesmo tempo, dados recentes no mercado de trabalho mostram uma desaceleração na criação de vagas durante o mês de junho.
No meio deste turbilhão, está o Federal Reserve e as decisões sobre os juros. As taxas de empréstimo estão entre 3,5% a 3,75% ao ano, patamar historicamente elevado para o país.
Aos poucos, cresce a expectativa por um novo apertão na política monetária. O BofA (Bank of America), por exemplo, trabalha com três altas de juros entre setembro e dezembro, levando a taxa para a faixa de 5% a 5,25%.
Além das pressões econômicas, o Fed também sofre intimidações da Casa Branca – outro movimento da gestão republicana que distoa da tradição norte-americana de manter um BC independente.
Ameaças ao Fed
Desde o seu retorno à presidência, Donald Trump focou parte de suas críticas ao Federal Reserve. O republicano reclama do patamar das taxas de juros, que julga como muito elevado.
No entanto, ele seguiu além das declarações e tentou interferir efetivamente na autarquia, um dos símbolos de independência do país – junto do sistema judiciário.
“Embora a liderança política mude e adote discursos protecionistas, o Federal Reserve e o sistema judiciário americano ainda mantêm uma reputação de independência e rigor técnico incomparáveis. O mundo confia no sistema, mesmo desconfiando do governante”, diz Otaviano Canuto, ex-Banco Mundial, FMI (Fundo Monetário Internacional) e BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).
Trump ameaçou, em diversas situações, demitir o ex-presidente da instituição, Jerome Powell, e cobrar sua renúncia.
O Fed é um órgão independente, onde os diretores servem mandatos fixos e, depois da indicação presidencial, passam pela aprovação do Congresso. Eles só podem ser demitidos “por justa causa”, algo que nunca ocorreu antes nos 250 anos dos Estados Unidos.
A Casa Branca viu a reforma no prédio do BC como uma possível brecha para demití-lo. A obra estourou o orçamento inicial e procuradores federais abriram uma investigação a respeito do caso. Powell tratou a situação como uma forma de pressão para mudar o rumo das taxas de juros.
Pouco antes, Trump já havia tentado demitir a diretora Lisa Cook do cargo por supostas fraudes hipotecárias – as quais ela nega.
Nesta segunda (29), a Suprema Corte efetivamente bloqueou o movimento e agiu para garantir a liberdade de ações do Banco Central.
Os magistrados afirmaram que Cook pode seguir nas funções e que liberar o desligamento dela permitiria que Trump removesse um integrante do Fed “a qualquer momento, por qualquer motivo, sem aviso prévio nem checagem jurídica posterior”.
Crise de dívida?
Um dos marcos dessa segunda passagem de Trump pela Casa Branca foi o chamado “One Big, Beautiful Bill” (um grande e belo projeto de lei, em tradução livre).
Aprovado em julho de 2025, o megaprojeto orçamentário inclui uma série de corte impostos prometidos pelo presidente durante sua campanha – como a isenção de imposto de renda sobre gorjetas e regimes tributários especiais para empresas -, além de elevar a despesa do governo dos EUA com defesa e proteção de fronteira.
O resultado disso pode ser um aumento de US$ 4 trilhões na dívida norte-americana ao longo da próxima década, segundo estimativas do Bipartisan Policy Center – isso em um cenário que já é nebuloso.
“Nós temos uma situação de dívida insustentável, ou o que eu chamaria de trajetória. Ou seja, para onde as coisas estão indo”, afirmou Bernstein.
E o alerta é soado de dentro do próprio governo: em um relatório do dia 11 de junho, o GAO (Escritório de Responsabilidade Governamental dos EUA) destacou que a dívida do governo federal está crescendo mais rápido que a economia norte-americana.
O rombo chegou a US$ 39,46 trilhões no final de junho, segundo dados do Tesouro dos EUA compilados pelo Comitê Econômico Conjunto do Congresso norte-americano, valor que ultrapassa os US$ 32 trilhões do PIB (Produto Interno Bruto) do país.
Essa é a primeira vez desde 1946, no pós-Segunda Guerra Mundial, que a dívida dos Estados Unidos eclipsa o crescimento econômico local.
“Embora isso represente um novo marco indesejável, o crescimento da dívida federal é um problema antigo e crescente que terá consequências duradouras se não for enfrentado. O aumento da dívida pode levar a sérios desafios econômicos e de segurança nacional. Os americanos também podem constatar que isso prejudica suas finanças pessoais”, escreve o GAO.
E segundo as projeções do relatório, a dívida tende a crescer duas vezes mais rápido que a economia nos próximos 10 anos, chegando a 123% do PIB em 2036. Em 30 anos, a dívida detida pelo público deverá chegar a 251% do PIB.
Se a profecia se realizar, “a trajetória é claramente insustentável no longo prazo”, enfatiza Otaviano Canuto.
“Dada a posição da dívida pública do país como ativo de reserva para agentes econômicos no mundo, privados e públicos, os patamares de dívida pública em relação ao PIB atuais e no futuro próximo não chegam a suscitar uma percepção de riscos de calote ou inadimplência. Na sequência, porém, caso mantido o percurso de ascensão vertiginosa, os patamares deixarão qualquer zona de tranquilidade”, pontua o economista.
Calote é uma palavra que “não existe no vocabulário em relação à dívida americana”, ressalta Alexandre Cabral, professor de assuntos ligados ao Mercado Financeiro na B3 e na Saint Paul Escola de Negócios. Porém, destaca que o que pode acontecer é um problema de emissão de dívida.
“Tem que encurtar a dívida para poder conseguir fazer a emissão. Não a ponto de calote. […] Mas vive aquela crise de ter que deixar mais prêmio na mesa, mais taxa para poder conseguir fazer a rolagem, porque é uma dívida muito, muito alta”, afirma Cabral.
Ainda assim, por mais complexo que pareça, o cenário é reversível. Para isso, no entanto, será necessária força política – algo que se mostra pouco provável em um país dividido.
“É um problema de economia política: qualquer combinação de corte de benefícios ou aumento de impostos tem custo político concentrado e imediato para quem vota nele, enquanto o benefício de evitar uma crise futura é difuso e distante no tempo”, explica Canuto.
Bernstein também descreve a falta de interesse por parte do Congresso: “os políticos não se importam. Eles simplesmente não se importam. Nós não temos uma crise, mas talvez ela seja necessária para chamar a atenção das pessoas. Mas eu espero que não”.
O caminho para reverter a situação envolve retirar algumas das isenções de impostos da gestão Trump e implementar novos cortes de gastos em determinados programas.
O objetivo é ampliar a arrecadação, que está mais fraca do que o esperado. Os EUA recolhem cerca de 17% do PIB em impostos, mas, diante do crescimento da economia do país, deveriam garantir entre 19% a 20%. Mas Bernstein aponta que o movimento precisaria levar em conta as necessidades da população americana.
“Quaisquer cortes de gastos que tornem a vida mais difícil para as pessoas economicamente vulneráveis seriam uma solução pior do que o próprio problema”, diz o ex-conselheiro de Biden.
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A força do dólar
E até o pilar do sistema financeiro internacional e dos investimentos estrangeiros sofreu em algum momento com a desconfiança em torno dos EUA e uma busca por diversificação e independência do país.
Enquanto bancos centrais por todo o mundo começaram a buscar reservas alternativas à moeda norte-americana, parceiros comerciais começaram a avaliar transações diretas, sem depender de um sistema financeiro baseado no ativo dos EUA.
“Os bancos centrais pré-guerra estavam comprando muito ouro. Então, sem dúvida, acaba tirando a força do dólar”, pontua Alexandre Cabral.
“Há a expectativa de que o dólar perca mais espaço, porque você já vê o Brasil querendo emitir em yuan, você já vê outros países, principalmente pós-era Trump, começarem a falar em câmbio diretamente. Então, dólar canadense contra dólar australiano sem passar pelo dólar. Então, sim, existe uma possibilidade do dólar perder espaço”, explica.
Contudo, a divisa não saiu 100% da carteira das pessoas, instituições e governos. E em momentos de incerteza ou de expectativa por nova alta de juros nos EUA, como hoje, o capital estrangeiro volta a ter no dólar seu porto-seguro.
“Tirar a força do dólar para jogar ao ostracismo? Não, muito, muito, muito longe disso. Mas tira aquela força do dólar que tinha há 20, 30 anos atrás. Então, sim, a busca de divisa alternativa ajuda a tirar a força do dólar, mas não acaba com a moeda, longe disso”, pontua Cabral.
A bandeira ainda está lá
Mesmo diante de um cenário adverso, os Estados Unidos ainda detêm uma forte influência nas decisões globais e uma economia forte – que ainda tem espaço para crescer. O PIB do país aumentou 2,1% em 2025 e, mostrando resiliência, deve manter o avanço neste ano.
“É uma tendência”, pontua Bernstein, “e, a não ser que tenhamos um choque, esse número seguirá nos próximos anos”.
Isso é puxado por um mercado financeiro em plena expansão, um investimento forte em tecnologia e um cenário de empregos sólido.
Além disso, o mercado consumidor dos EUA segue como o maior do mundo – algo que não vai mudar tão rapidamente. Aliados históricos como o México e Canadá até podem tentar reduzir o peso de Washington em suas balanças comerciais, mas seria difícil zerá-lo.
“Os americanos vão continuar a ser um parceiro comercial grande para muitos países, e em alguns produtos particularmente”, diz Barral.
Apesar das incertezas de Trump, “a economia está acelerando”, diz Bernstein.
Assim, acredita-se que ainda há esperança que os preceitos dos fundadores do país seguirão como motor da maior potência do planeta.
“Portanto, temos uma economia muito resiliente, bastante globalizada e com uma grande entrada de capital global, tanto para a compra de ativos quanto para investimentos aqui”, conclui o economista.













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