Muitas acusações, poucas propostas e caos generalizado resumem o primeiro confronto televisivo entre os candidatos Flávio Bolsonaro (PL)e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que aconteceu neste domingo (18) na Band. Como exemplo, Flávio lançou mão da estratégia trumpista de ficar no enquadramento do oponente o tempo todo e fugiu com certa naturalidade das perguntas formuladas por Lula.
Ao BdF Entrevista, a cientista política Tathiana Chicarino avalia que o debate não contribuiu em nada para comparar candidaturas e disputar o voto de indecisos. Ela observa que, para o eleitor que não tem o hábito de acompanhar a política mais de perto, o confronto pode ter até assustado. “Ficou muito difícil tentar identificar o que um candidato é, o que o outro é, o que um propõe, o que o outro propõe. Essa diferenciação ficou bastante difícil de ser feita”, afirma.
Chicarino afirma que a extrema direita usa táticas já bastante conhecidas que acabam rebaixando o nível do debate. “Esse rebaixamento existe porque o adversário não é lido como adversário, mas é lido como inimigo, e ‘inimigo eu tenho que eliminar’. É esse tipo de estratégia. Como, por exemplo, ter de pensar ou desviar de assuntos. Então, quando é questionado sobre um assunto de forma direta, eles desviam e trazem o fantasma do pânico moral. Aí, quando Lula questiona se a política econômica vai ter como inspiração o Milei, ele fala: ‘E a Venezuela?’ É uma tática que já é bastante conhecida, que eu imagino que a campanha do Lula deve ter preparado para isso, mas que é muito difícil de lidar mesmo”, pontua.
Para ela, Flávio Bolsonaro consegue trabalhar bem o sentimento de antipetismo e antilulismo, ao mesmo tempo em que reforça a imagem do bolsonarismo como sinônimo de mudança. É esse o ponto que a campanha do Lula precisa atacar. “Ele aponta muito, ele já esteve aqui muito tempo e as coisas não ficaram boas. Ele está prometendo coisas, por que ele já não fez? ‘Eu sou a mudança.’ Então, como é que é possível destravar isso? É a campanha de Lula dizer: ‘Eles já estiveram, eles fizeram coisas muito ruins’. O momento auge de Lula foi quando ele falou da saúde e da pandemia”, afirma.�
A especialista também aponta a influência de Olavo de Carvalho na construção das representações públicas da extrema direita naquilo que ela chama de espécie de cartilha olavista, que matou qualquer possibilidade de um debate de ideias construtivo e saudável. “Os cursos dele e todas as táticas que ele foi apontando sobre como se posicionar no espaço público é isso, não tem um debate possível, então é muito complicado lidar com a extrema direita, porque a extrema direita não vai puxar para esse debate”, avalia.
Nesse sentido, ela defende que Lula se prepare melhor para compreender e navegar nessas armadilhas que Flávio vai colocar no próximo debate buscando a desestabilização do adversário. “Eu acho que vale uma pressão para as emissoras, para que também lidem com esse novo paradigma de que a gente está falando. É possível ele falar mentiras e tudo bem? Como não tem uma checagem? Porque tem questões que são ideológicas, de percepção de mundo, de entendimento de mundo, de futuro, mas tem questões que são factuais. E poderia ter uma checagem, pelo menos, dessas questões factuais”, defende.
Para Chicarino, Lula também conseguiu expor o que ficou óbvio: que Flávio fugiu a todo momento de responder às perguntas. “Eu acho que teve momentos interessantes, em que ele conseguiu direcionar mais, conseguiu trabalhar ali o que ele pretendia, que é colocar algumas perguntas e enfatizar que elas não são respondidas. Então, isso foi interessante, porque foram nesses momentos que, de alguma maneira, ele conseguiu desestabilizar, ainda que pouco, o Flávio Bolsonaro. Então, ficou patente que ele não respondeu a nenhum questionamento de Lula”, pontua.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.













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