A chuva que atinge São Paulo (SP) desde a noite de sexta-feira (11) voltou a alagar bairros da zona leste neste sábado (12). Na União de Vila Nova, em São Miguel Paulista, moradores relatam que a água começou a subir durante a madrugada e ainda tomava ruas e casas no fim da manhã.
“Tá chovendo em União de Vila Nova desde às 23 horas. Quando foi às 2 horas, começou a encher de água e agora, são 10h17, ainda estamos debaixo de água”, relatou Emerson Maquiné, morador do bairro e integrante da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
O temporal provoca transtornos em diferentes regiões da capital. Por volta das 11h, o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) registrava 17 pontos de alagamento, com bloqueios inclusive em trechos da Marginal Tietê. Até o mesmo horário, setembro acumulava 148,1 milímetros de chuva na cidade, volume 124,7% acima dos 66 milímetros esperados para todo o mês.
Entre 1h40 e 5h, o Corpo de Bombeiros registrou 11 chamados por alagamentos ou enchentes na capital e na Região Metropolitana de São Paulo. No mesmo período, foram seis ocorrências de queda de árvores e sete chamados relacionados a desabamento, desmoronamento ou soterramento. Quatro vítimas foram contabilizadas, sem detalhamento sobre a natureza dos atendimentos.
Na União de Vila Nova, porém, o volume de chuva não é a única preocupação. Moradores voltaram a relacionar a demora para a água escoar à operação da barragem da Penha, no Rio Tietê. Emerson afirmou que, pela falta de vazão observada no bairro, acredita que as comportas estejam fechadas.
“A água não tá escorrendo, não tá tendo vazão. Seguimos aqui com sofrimento, como todos os anos, e a gente quer solução”, contou. A União de Vila Nova está entre os bairros da várzea do Tietê atingidos de forma recorrente pelas cheias. Em 2025, a região enfrentou um dos episódios mais graves dos últimos anos, com água dentro de casas e comércios e perda de móveis e eletrodomésticos.
“Eles escolhem o local para inundar. Eles escolhem”, relatou Emerson, criticando o descaso do poder público com os moradores da zona leste paulistana. E, ao resumir a rotina de alagamentos da região, conclui que: “Eles fazem um sorteio: esse ano vai ser aquele bairro tal”.
De acordo com a última atualização sobre a barragem no site da SP Águas, feita às 12h de sexta-feira, todas as seis comportas da barragem estavam fechadas.
Vereador acusa governo de priorizar Marginal
Presidente da CPI do Pantanal, instalada na Câmara Municipal para investigar as enchentes na região, o vereador Alessandro Guedes (PT) também atribui influência à operação da barragem da Penha. Ao Brasil de Fato, ele reconheceu a intensidade da chuva, mas acusou o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) de fazer uma escolha que protege as vias centrais e transfere o impacto para bairros periféricos a montante da barragem.
“De fato, ter chovido muito em São Paulo não podemos negar, mas a escolha que o governador Tarcísio faz agora, nesse momento, com o fechamento da barragem, é livrar a Marginal e algumas vias de algum tipo de alagamento, privilegiar o carro e permitir que a população para trás da barragem, em sentido Pantanal, União de Vila Nova, todos esses bairros, sofram com inundações e enchentes”, afirmou.
A informação de que as comportas estavam fechadas neste sábado ainda não havia sido confirmada pela SP Águas até a publicação desta reportagem. O órgão, responsável pela operação da barragem da Penha, foi procurado para informar a situação das seis comportas durante a madrugada e a manhã deste sábado e quais manobras foram realizadas no período.
A SP Águas nega relação entre o fechamento das comportas e as inundações nos bairros da região.
Guedes afirma, no entanto, que a controvérsia foi um dos temas examinados pela CPI. Segundo ele, enquanto representantes da SP Águas negaram a relação entre a barragem e as enchentes, outros técnicos ouvidos pela comissão apontaram que o represamento pode afetar o sistema de drenagem a montante.
“A nossa CPI teve lá o depoimento de representantes da SP Águas, que diz que a barragem não tem relação com as inundações, mas teve depoimentos de técnicos e outros órgãos que disseram sim, que o remanso da barragem pode causar influência no sistema de drenagem e que leva à situação em que o povo do Pantanal se encontra”, disse.
A CPI do Pantanal foi instalada em 4 de setembro de 2025, após determinação da Justiça, e encerrou seus trabalhos após investigar as causas das inundações no Jardim Pantanal e em bairros vizinhos. Entre os pontos analisados estavam a operação da barragem, as condições do sistema de drenagem e alternativas para conter o excesso de água na várzea do Tietê.
Neste sábado, Guedes também informou que o departamento jurídico de seu mandato começou a avaliar medidas para tentar obter a abertura controlada das comportas.
“O departamento jurídico do nosso mandato está analisando já que providências podemos tomar para exigir a abertura pelo menos controlada”, afirmou. Como os trabalhos da CPI já terminaram, acrescentou, uma eventual iniciativa terá de partir do mandato ou de outros vereadores.
Cheias recorrentes
A inundação deste sábado ocorre meses depois de o Brasil de Fato acompanhar a situação de famílias da União de Vila Nova que convivem há anos com a água dentro de casa. Moradores instalaram comportas de metal nas portas, elevaram móveis e construíram novos pavimentos para tentar escapar das cheias.
Emerson, que mora no bairro há sete anos, já havia relatado à reportagem que as famílias entram em alerta sempre que começam as chuvas mais fortes. Segundo ele, o medo se estende principalmente entre dezembro e março e afeta também as crianças.
Além da barragem da Penha, moradores e o MAB cobram manutenção e desassoreamento dos córregos e do Tietê.
O Brasil de Fato procurou a SP Águas e a Prefeitura de São Paulo para obter informações sobre a situação na União de Vila Nova, a operação da barragem da Penha e o atendimento às famílias atingidas. A reportagem será atualizada quando houver retorno.













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