Na avaliação do professor Li Ji, diretor do Instituto de Pesquisa em Reciclagem Orgânica de Suzhou, da Universidade de Agricultura da China (UAC), a utilização eficiente dos resíduos orgânicos disponíveis localmente pode suprir de 30% a 50% da demanda por fertilizantes nos países do Sul Global. “Com o tempo, isso pode permitir que esses países estabeleçam seus próprios sistemas independentes e autossuficientes de produção de fertilizantes e, por extensão, sistemas alimentares mais resilientes”, afirmou.
“Ainda faltam muitas políticas de apoio. Governos precisam avaliar qual parcela dos fertilizantes químicos pode ser substituída pelo aproveitamento de resíduos orgânicos e implementar incentivos para que os agricultores reconheçam o valor dos orgânicos na saúde do solo”, analisa.
Li Ji é um dos professores da 6ª Escola Internacional de Bioinsumos, realizada pela UAC em parceria com a Baobab (Associação Internacional para Cooperação Popular) e a Beijing Voto Biotech. A instituição forma estudantes de 15 países do Sul Global em tecnologias de compostagem acelerada, que convertem resíduos orgânicos em fertilizantes em questão de dias.
“Os governos [do Sul Global] devem apoiar mais instituições de pesquisa a atuar nesse campo, fortalecer a capacidade local de pesquisa e formar técnicos de base”, defende o pesquisador chinês.
O programa de formação e intercâmbio vem sendo realizado na Escola de Revitalização Rural de Suzhou, na província de Jiangsu, de 15 a 30 de junho, sob orientação do Ministério da Ciência e Tecnologia da China. A formação combina aulas sobre microbiologia e compostagem com demonstração prática em reatores e quatro visitas técnicas a instalações em Jiangsu e Xangai. Participam camponeses, pesquisadores, representantes de governos e de empresas da Argentina, China, Bangladesh, Brasil, Egito, Gana, Iraque, Marrocos, Mongólia, Paquistão, Tanzânia, entre outros.
Resíduo como recurso
“Resíduos agrícolas são produzidos em quantidades enormes no mundo todo. Isso não é lixo. É um recurso fora do lugar, extremamente valioso”, diz o professor Xu Ting, da UAC e coordenador do programa de formação.
Li Ji, cuja equipe acumula quase 30 anos de pesquisa em compostagem industrial, detalhou a base técnica. “Desenvolvemos tecnologias e equipamentos para compostagem em escala industrial e implementamos projetos de demonstração em diversas regiões da China”, disse. Há cerca de cinco anos, segundo ele, a universidade começou a avaliar como compartilhar essas tecnologias com países do Sul Global, “em particular Brasil, outros países da América Latina e nações do Sudeste Asiático”.
Para Li Ji, compostos e fertilizantes orgânicos são “uma categoria central dentro dos bioinsumos”. O programa em Suzhou foca em técnicas de compostagem e produção de fertilizantes orgânicos “para estabelecer gradualmente um sistema circular de aproveitamento de resíduos e substituir progressivamente os fertilizantes químicos, avançando na agricultura sustentável”, explicou.
Pó de rocha e compostagem acelerada
Entre as contribuições do Brasil ao programa está a remineralização. Caroline Gomide, professora da Universidade de Brasília (UnB), pesquisadora visitante na UAC e coordenadora da escola, é também responsável pelas aulas sobre fertilizantes minerais. “O Brasil está na ponta dos remineralizadores. A China não tinha conhecimento sobre essa área de pesquisa”, afirmou. “A tecnologia chinesa de compostagem é madura, com mais de 20 anos de estudo. Os remineralizadores no Brasil também acumulam mais de 20 anos”.
O uso de pó de rocha durante a compostagem acelerada para produção de fertilizantes organo-minerais é o objeto da pesquisa de Gomide na China. “Estamos combinando essas duas tecnologias que geram um fertilizante organo-mineral, na perspectiva de incluir o pó de rocha durante o processo de compostagem acelerada”, disse a pesquisadora brasileira. A adição de minerais potencializa interações microbianas e captura gases.
“Os minerais são capazes de capturar amônia. Isso traz mais nutrientes para as plantas e evita emissões que são normais na compostagem”, detalhou. Durante a escola, os participantes realizaram exercícios práticos de compostagem com inclusão de minerais.
Substituição de agrotóxicos: a experiência chinesa
A China tem como política a redução no uso de fertilizantes sintéticos. Xu Ting explicou que o governo chinês lançou, por volta de 2015, uma iniciativa de substituição gradual. “Começamos com a meta de substituir 20% dos fertilizantes químicos por orgânicos. O objetivo final é chegar a 50%”, disse.
O Gigante Asiático lidera entre as grandes regiões agrícolas na redução consistente do uso de fertilizantes sintéticos desde o pico de 2015, sob políticas de crescimento zero iniciadas nesse ano, segundo o FAOSTAT Analytical Brief n.º 68 da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura).
Esse levantamento registrou uma “grande diminuição no uso total na China”, enquanto nos Estados Unidos e na União Europeia “permaneceu bastante estável”. Dados do Escritório Nacional de Estatísticas da China mostram que o consumo caiu de 60,226 milhões de toneladas em 2015 para 50,792 milhões de toneladas em 2022.
“Enquanto os outros países seguem aumentando, a China está diminuindo. O plano é que, entre 2035 e 2040, cheguem a usar 50% de fertilizante orgânico, 50% de fertilizante sintético”, afirmou Gomide.
Xu Ting reconheceu que a transição encontra resistências. “No início, os agricultores não eram muito receptivos. Mas o governo ofereceu subsídios financeiros específicos e nós, como técnicos e cientistas, promovemos e demonstramos continuamente essas tecnologias”, disse. “Creio que em dez, talvez vinte anos, atingiremos esse objetivo.”
Cooperação com o Brasil
Li Ji falou sobre cooperação em andamento entre a UAC e instituições brasileiras, como um trabalho conjunto com a UnB (Universidade de Brasília) e com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Identificamos seis locais-piloto onde nossos equipamentos serão instalados. Uma vez em operação, pretendemos expandir significativamente”, disse. Os projetos incluem sistemas de compostagem para pequenas propriedades e tecnologias para plantas industriais de fertilizantes orgânicos.
Na pesquisa, segundo Li Ji, é preciso fortalecer a cooperação entre instituições científicas por meio de “projetos bilaterais ou programas de formação como este”. Nas empresas, a adoção depende de projetos de demonstração que permitam “a produtores e agricultores ver, na prática, como essas tecnologias funcionam”.
Tecnologia na mão do campesinato
Para Paula Veliz, da equipe técnica de bioinsumos da Baobab, o desafio é garantir que a tecnologia dos bioinsumos fique “na mão dos camponeses e das suas cooperativas” e não se repita “o que aconteceu com as sementes“: que sirva à agroecologia camponesa, não ao agronegócio. Apesar de representarem “em torno de 3 a 5% do mercado de insumos agrícolas”, a demanda cresce “em torno de 15% ao ano”, afirmou.
A coordenadora da Baobab no Brasil, Bárbara Loureiro, vincula a produção soberana de bioinsumos a um processo mais amplo de reforma agrária popular. “A construção dessa rede de produção de bioinsumos de forma soberana, de forma autônoma, visa romper com a lógica de dependência. O direito de escolher como produzir o seu alimento, para quem produzir, passa por organizar a produção dos bioinsumos”, afirmou. Para Loureiro, a agroecologia “não é só uma alternativa: é uma disputa direta por um outro projeto de desenvolvimento, por outra forma de relação com a natureza”, que exige “uma reorganização do território a partir dos modos de vida camponeses”.













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