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Comissão conclui que JK foi assassinado pela ditadura: por que o ex-presidente, que apoiou o golpe de 1964, incomodava?

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A Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos concluiu, no fim de maio, que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado pela ditadura cívico-militar no Brasil. A versão oficial até então era de que a batida de carro que o vitimou tinha sido um acidente. Com isso, a certidão de óbito de JK deve ser retificada. Juscelino morreu no dia 22 de agosto de 1976 em uma colisão entre o carro onde ele viajava e um caminhão na rodovia Presidente Dutra.

Segundo a versão oficial da época, foi um acidente. Analisando uma vasta documentação, o relatório da comissão encontrou 37 fraudes na investigação. Não foi feito exame toxicológico no corpo do motorista Geraldo Ribeiro, o que poderia revelar se ele tinha sido envenenado. O local do acidente foi alterado por policiais. Além disso, a versão oficial apontava que um ônibus havia batido na traseira do carro de JK. Isso teria feito o veículo ir para a pista contrária onde foi acertado pelo caminhão. Mas passageiros do ônibus disseram que não houve colisão. Afinal, por que JK se tornou uma pedra no sapato do regime militar?

Ao BdF Entrevista, Rodrigo Patto, professor de História do Brasil da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que o peso da decisão é enorme, considerando que parte de uma comissão oficial do Estado. Além disso, o fato de a notícia vir a público em 2026 assume alguns contornos políticos também importantes. “Tem um peso também importante em vista do cenário político que a gente vive. Esse ano é disputa eleitoral e, mais uma vez, as forças de extrema direita, de ultradireita, disputam o poder, tentam voltar ao poder depois da derrota eleitoral do Bolsonaro, em 2022, e, como é sabido, essas forças de ultradireita são simpáticas à ditadura. Então, levantar esse tema da violência da ditadura hoje é bastante importante, inclusive para chamar atenção para certos setores da população que aparentemente desconhecem ou minimizam a violência da ditadura. Então, acho que tem uma importância política e cívica bastante grande. A violência nos faz lembrar o que é uma ditadura. A ditadura se caracteriza essencialmente pela violência política, pelo cerceamento de direitos e por atos arbitrários, inclusive o assassinato de pessoas. Então, eu considero bastante importante. Eu espero que essa decisão da comissão gere mais investigações, gere mais discussão sobre o tema e mais repercussão pública”, defende.

Patto explica que JK era odiado pela “ala direita das Forças Armadas” desde os anos 1950. “Desde que ele se candidatou à presidência como herdeiro político de Getúlio Vargas. E também porque ele fez uma aliança com a esquerda para ganhar as eleições. Ele fez uma aliança com o PTB e fez uma aliança informal com o Partido Comunista. Isso gerou um ódio muito grande entre os militares de extrema direita, que desde então nunca o perdoaram. É interessante que, como governador de Minas, antes disso, ele não tinha tantos problemas com a extrema direita. Mas, ao se tornar candidato presidencial e vencer as eleições, ele virou uma figura maldita, malquista”, explica.

O historiador também conta que, naquela ocasião, se iniciava o embrião do discurso que ganharia força na extrema direita até os dias atuais: supostamente serem contra a corrupção. “Houve dois golpes militares, um antes da posse, outro depois da posse, frustrados. Essa extrema direita odiava o JK pelo projeto de Brasília”, diz. “Isso foi um tema muito forte no final dos anos 1950, a acusação de que a obra de Brasília gerava corrupção, gerava gastos desnecessários. Então, esses grupos de extrema direita combinaram duas coisas muito fortes no discurso da direita no Brasil: o discurso contra a esquerda, contra o comunismo, geralmente verbalizado como anticomunismo, e o discurso contra a corrupção”, relata.

Rodrigo Patto também destaca que JK apoiou o golpe em 1964. “No ato do golpe, ele apoiou. Só que ele deu um apoio de última hora, um apoio um pouco convincente, um pouco constrangido. Ele declarou o afastamento dele em relação ao governo João Goulart uma semana antes do golpe. Foi no dia 18 ou 20 de março que, numa convenção do PSD, ele fez um discurso se alinhando com o bloco golpista. E o alinhamento se deu pela fórmula anticomunista, pelo jargão anticomunista, dizendo que o governo do João Goulart estava se inclinando muito à esquerda e isso não era um bom caminho para o Brasil e era preciso fazer algo. Então, ali ele se alinha às conversas privadas dele, também com americanos e com outras personalidades; isso fica claro. Então, ele apoia a derrubada do João Goulart e continua apoiando durante algum tempo, e continua falando que o Goulart tinha ido muito longe na aliança com a esquerda. Como parlamentar, ele era senador, ele votou pela eleição do general Castelo Branco como presidente para assumir a vaga do João Goulart, que foi mais um ato da ditadura, porque a eleição indireta do Castelo Branco foi uma violência à Constituição, porque pela Constituição o Castelo Branco não poderia ser presidente, e o JK vota pelo Castelo Branco”, continua.

“É um momento político do JK oportunista de tentar se salvar, tentar ir pelo lado vitorioso. Só que não adiantou porque os militares continuaram não confiando nele, continuaram achando uma figura perigosa, perniciosa. Aí, o mandato político dele acaba sendo cassado poucos meses depois do golpe, em junho de 1964”, conta.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.





Com Informações: Brasil de Fato

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