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Comboio chega a Sobradinho e avança na retomada da navegação comercial no Rio São Francisco

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A retomada da navegação comercial no Rio São Francisco deu um passo importante neste mês com a conclusão da primeira etapa de uma missão exploratória acompanhada pela Marinha do Brasil e executada pela Autoridade Portuária Federal (Codeba).

O comboio partiu de Pirapora, em Minas Gerais, no dia 2 de abril, e chegou no dia 15 às proximidades da barragem de Sobradinho, no norte da Bahia, após percorrer 1.371 quilômetros pelo Velho Chico. A operação integra uma força-tarefa voltada à reativação de uma das principais rotas fluviais do país, com impacto esperado sobre a logística, o transporte de cargas e a economia de municípios ribeirinhos.

Segundo as informações divulgadas pela Agência Marinha de Notícias, a missão foi realizada com cinco embarcações: a barca Cidade Pirapora, duas chatas, a draga Matrichã e um rebocador. O destino final do comboio é Juazeiro, onde as embarcações deverão passar por manutenção. A iniciativa faz parte do projeto da nova hidrovia do Rio São Francisco, estruturado a partir de autorização do Ministério dos Portos e Aeroportos, com participação da Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), na condição de autoridade portuária federal, e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

O planejamento da missão envolveu estudos técnicos, monitoramento contínuo do rio e avaliação das condições naturais de navegação. De acordo com a Marinha, a expedição ocorreu em um período considerado favorável, em razão da cheia do rio. Mesmo assim, o trajeto ainda exige cautela, porque a hidrovia permanece sem sinalização e balizamento, o que torna o apoio operacional da força naval um dos pontos centrais desta fase inicial.

Militares da Delegacia Fluvial de Pirapora, da Agência Fluvial de Bom Jesus da Lapa, da Capitania Fluvial de Juazeiro e do Comando do 2º Distrito Naval acompanham o deslocamento das embarcações. O trabalho tem como foco garantir a segurança da navegação e das pessoas envolvidas na missão, além de apoiar a reorganização da rota que poderá voltar a ser usada regularmente para o transporte comercial.

A reativação da hidrovia representa a tentativa de restabelecer uma atividade interrompida há mais de uma década. Esse tipo de operação não ocorre no São Francisco desde 2012, quando o assoreamento de trechos do rio comprometeu a navegabilidade. Ao longo desse período, a perda de condições adequadas para a circulação de embarcações afetou diretamente o uso do rio como corredor logístico, reduzindo a integração entre áreas produtoras, centros de distribuição e cidades ribeirinhas.

Historicamente, a navegação comercial no São Francisco teve papel relevante na movimentação de cargas entre Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. Em um dos depoimentos divulgados pela Marinha, o assessor de comunicação do Comando do 2º Distrito Naval, capitão de mar e guerra Flávio Almeida, relembra que, quando atuou em Juazeiro entre 2004 e 2006, a hidrovia funcionava com intensidade.

Segundo ele, comboios seguiam até Ibotirama, no oeste baiano, para buscar grãos como soja, milho e caroço de algodão, que eram transportados para Juazeiro e Petrolina. Havia também embarcações comerciais que subiam o rio até Minas Gerais levando e trazendo mercadorias, em uma dinâmica que movimentava a economia regional.

Na avaliação da Marinha, a retomada dessa operação pode gerar reflexos diretos sobre o desenvolvimento do Vale do São Francisco. A expectativa é de fortalecimento da logística regional, redução de custos de transporte, ampliação da integração com modais rodoviário e ferroviário e criação de novas oportunidades de trabalho e renda para populações que vivem às margens do rio. A reativação também recoloca o São Francisco em posição estratégica dentro das discussões sobre infraestrutura, mobilidade de cargas e desenvolvimento sustentável no interior do país.

Travessia passou por cidades da Bahia e de Minas Gerais

Foto: Segundo-sargento Denis Rocha | Marinha do Brasil

Em duas semanas de navegação, o comboio percorreu trechos de Minas Gerais e da Bahia até atingir a área de Sobradinho. No percurso, a missão passou por Pirapora, Ibiaí e São Romão, em território mineiro. Já na Bahia, o deslocamento incluiu Carinhanha, Bom Jesus da Lapa, Paratinga, Ibotirama, Barra, Xique-Xique, Pilão Arcado, Sento Sé e Casa Nova, antes da chegada à barragem de Sobradinho. O trajeto permite não apenas testar a viabilidade da navegação, mas também reconstruir, na prática, a leitura operacional da hidrovia.

Ao longo da viagem, a experiência dos profissionais que já navegaram no São Francisco em outros períodos foi apontada como parte importante da operação. O comandante do comboio, Reginaldo Santos, que atua no rio há mais de 40 anos, afirmou à Agência Marinha de Notícias que retornar ao lago de Sobradinho duas décadas depois reforça a percepção de que o rio continua sendo essencial para os ribeirinhos. Segundo ele, a missão representa um sinal de futuro para comunidades que dependem direta ou indiretamente da retomada da navegação.

Também ouvido pela Marinha, o piloto fluvial Natanael da Rocha Montalvão destacou que a condução no São Francisco exige conhecimento detalhado do comportamento do rio. Mesmo com recursos modernos de navegação, a leitura do canal, dos bancos de areia, das margens e das alterações do curso d’água continua sendo decisiva. Esse tipo de experiência é visto como complementar à tecnologia e à estrutura técnica que está sendo mobilizada para reimplantar a hidrovia.

Outro depoimento divulgado pela força naval foi o do segundo-sargento Ricardo Luiz Rodrigues Gomes, que auxiliou a missão com conhecimentos técnicos ligados a manobras e reparos. Para ele, além do aspecto operacional, a travessia evidencia a relação das populações ribeirinhas com o rio e a expectativa de retomada de atividades econômicas nas cidades localizadas às suas margens. A avaliação coincide com a leitura institucional apresentada pela Marinha, que associa a operação à geração de oportunidades e à reconexão do São Francisco com parte de sua função histórica.

Projeto prevê integração entre hidrovia, rodovias e ferrovias

De acordo com o Ministério dos Portos e Aeroportos, o projeto da nova hidrovia do Rio São Francisco foi dividido em três etapas em razão de sua dimensão. Todas preveem integração intermodal com rodovias e ferrovias, com o objetivo de elevar a eficiência logística e reduzir custos no escoamento de cargas. A proposta considera o rio não apenas como uma via isolada, mas como parte de uma malha de transporte capaz de conectar polos de produção agrícola, centros urbanos e estruturas portuárias do interior.

A expectativa informada no material da Agência Marinha de Notícias é de que o trecho entre Pirapora, em Minas Gerais, e Juazeiro, na Bahia, com conexão também a Petrolina, em Pernambuco, possa transportar cinco milhões de toneladas de carga já no primeiro ano de operação. Trata-se de uma estimativa relevante para um corredor que ficou sem navegação comercial regular por mais de dez anos e que agora volta ao centro das políticas de infraestrutura voltadas ao interior do país.

Além da movimentação de mercadorias, a retomada da hidrovia também pode ampliar a capacidade de planejamento logístico em áreas com forte produção agropecuária, especialmente no oeste e no semiárido baiano. Municípios que historicamente mantiveram relação com a navegação fluvial, a exemplo de Bom Jesus da Lapa, Ibotirama, Barra e Juazeiro, voltam a aparecer na rota de um projeto que pretende reorganizar fluxos de transporte e reaproximar o rio de sua função econômica.

Outro ponto destacado pela Marinha é que a navegação nesta fase vem sendo feita durante o dia, justamente para refazer a rota da hidrovia com base em observação direta, apoio técnico e avaliação das condições do canal. Equipamentos de sinalização também foram levados pelo comboio, o que indica que a operação atual tem caráter prático e preparatório, reunindo elementos para as próximas etapas do projeto.

A primeira fase concluída até Sobradinho tem, portanto, valor operacional e simbólico. No plano operacional, demonstra a possibilidade concreta de circulação de embarcações em um longo trecho do rio, sob monitoramento e apoio institucional. No plano econômico, recoloca em debate um eixo de transporte capaz de reduzir custos e ampliar a competitividade de cadeias produtivas do interior. E, no plano regional, reacende a perspectiva de reativação de uma atividade historicamente ligada ao cotidiano de cidades ribeirinhas da Bahia, de Pernambuco e de Minas Gerais.

Com a chegada do comboio a Juazeiro nas etapas seguintes e a continuidade dos estudos técnicos, a tendência é que o projeto avance para a consolidação da nova hidrovia do São Francisco. A operação acompanhada pela Marinha do Brasil mostra que a retomada da navegação comercial no Velho Chico já deixou o campo das projeções e entrou em fase de execução prática, ainda que inicial, em um processo que poderá redefinir parte da logística regional no vale do rio.



Com informações do Agência Sertão

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