Além de empurrar com mais força conteúdos da extrema-direita, a inteligência artificial da Meta, dona do Instagram e WhatsApp, tem bloqueado a criação de conteúdos do presidente Lula e liberado os de Flávio.
Não é novidade para ninguém. O algoritmo tem certa tendência ao fascismo. A engenharia das redes sociais foi feita sob medida para a máquina conspiratória da extrema-direita.
No livro “Os Engenheiros do Caos” (Vestígio, 2019), o pesquisador Giuliano Da Empoli mostra, a partir de estudos do MIT, que uma notícia falsa tem 70% mais chances de provocar engajamento e compartilhamento. Além disso, uma notícia verdadeira leva sete vezes mais tempo para atingir 1.500 pessoas. O algoritmo não é uma estrada neutra por onde o fascismo caminha. O algoritmo é um dos principais motores do novo fascismo.
Na guerrilha digital que se tornou a eleição de 2026, essa velocidade e esse volume de engajamento fazem toda a diferença. Ainda mais se temos grupos extremistas mobilizados permanentemente.
Partido Digital
O filósofo Marcos Nobre cunhou a ideia de “partido digital”. A tese é que a extrema-direita brasileira construiu uma organização política que funciona paralelamente aos partidos tradicionais. Não tem sede, estatuto ou filiados formalmente registrados, mas possui hierarquia, estratégia, mecanismos de mobilização e um objetivo inequívoco: conquistar o poder.
O Partido Digital Bolsonarista não se confunde com o PL, embora tenha nele seu principal aliado institucional. É uma estrutura que articula políticos, influenciadores como Pablo Marçal e Thiago Nigro, lideranças evangélicas e militantes em um ecossistema permanente de disputa política. Não entra em campanha apenas a cada quatro anos. Está em campanha o tempo inteiro. Em todo lugar.
É uma organização que conhece profundamente o funcionamento das plataformas digitais. Sabe produzir indignação, transformar conflitos em espetáculos e explorar os mecanismos de recompensa das redes sociais.
Exército de Lula
Na última eleição e agora nesta, Janones se transformou em um contraponto. Liderança estratégica na ampla frente democrática ao redor do presidente Lula, cuja campanha nas redes despertou tardiamente e de maneira espontânea no segundo turno, Janones incomodou.
O canal criado por ele, que chegou a bater 4 milhões de usuários, foi rapidamente tirado do ar pelo TSE, a despeito de ter cumprido o registro oficial no cartório eleitoral. O canal de Flávio continua no ar.
Não são só as decisões do ministro Kássio Nunes que têm gerado revolta e a sensação de parcialidade. Na primeira eleição fortemente municiada pela produção de conteúdo por IA generativa, as suspeitas de intervenção de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo na soberania das eleições brasileiras se tornaram um fato.
Caçadores de androides
Desde a manhã de hoje, milhares de perfis de esquerda começaram a denunciar a impossibilidade de gerar imagens e cards com o número 13 e o nome do presidente Lula. Na mesma conversa, o robô de Mark Zuckerberg rapidamente criava várias imagens de Flávio Bolsonaro. Além disso, muitos perfis críticos ao candidato do PL, como o do jornalista Leandro Demori, mostram uma redução absurda na entrega de stories, por exemplo. Da casa das centenas de milhares para a casa do milhar.
Grandes narrativas cyberpunks imaginaram um futuro, que agora é nosso presente, gerenciado por grandes corporações transnacionais com poderes que superariam os governos dos países. O universo cyberpunk é a plena realização dos desejos máximos do capital. Big techs são a manifestação desse pesadelo ultracapitalista, no qual a democracia é um obstáculo a ser eliminado do caminho. Elegendo aqueles que vão maximizar seus interesses e lucros, a despeito da espoliação de direitos e da dignidade da maioria da população, a realidade cyberpunk já é nossa realidade.
A necessidade de organização e mobilização permanente, nas ruas e nas redes, não vai se esgotar nessa eleição.
*Marcos Vinícius Almeida é escritor e jornalista. Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, colaborou com Folha, O Globo, Piauí e Suplemento Pernambuco. É autor do romance Pesadelo tropical (Aboio, 2023). Atualmente, prepara Tempo fantasma, seu segundo romance.www.marcosviniciusalmeida.com
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.













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