A vitória “espetacular” do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva coloca no petista o papel de liderar a mobilização popular em defesa de reformas no país, disse o economista João Pedro Stédile, da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em entrevista ao jornalista Breno Altman, do canalOpera Mundi, nesta quinta-feira (29).�
“Ele tem o papel de jogar da mobilização popular em defesa das reformas. Ele é o líder. Nós votamos nele. As pessoas se emocionavam com a presença deles. Ele não precisa ser o condutor das mobilizações, mas ele tem que ser o estimulador”, disse Stédile na conversa de cerca de uma hora.
Para o líder do MST, a militância que aconteceu no segundo turno alterou a correlação de forças e deu um sinal para o Lula iniciar o quarto mandato com uma agenda clara de reformar: “Fazer cinco, três, quatro grandes reformas e criar com essa agenda transparente, concreta de reformas, em um clima de mobilização na sociedade”.
Stédile disse que o MST e outros movimentos sociais deverão apresentar uma lista de propostas para o novo governo de Lula. “Sinto que há um clima positivo para mudanças. Então, o governo vai ter que fazer uma autocrítica em relação ao período passado e mudar o método, recuperar a participação das massas, fazer plebiscito, chamar o povo para consultas.”
Entre os diversos temas discutidos na entrevista, Stédile repetiu várias vezes a necessidade de diminuir a taxa de juros, para garantir recursos para o governo garantir as reformas. “Essa taxa de juros é inaceitável para qualquer processo de crescimento econômico e de desenvolvimento social.”
O economista defendeu diversas outras mudanças, como tarifa zero todos os dias da semana, reforma do Judiciário, soberania sobre terras raras e minerais críticos, desmatamento zero, fim da Lei Kandir. Além, claro, da reforma agrária, que, segundo ele, ficou aquém no Lula 3.
“Nós sempre fomos críticos, eles ficaram devendo. Mais de 100 mil famílias passaram os 4 anos acampadas, esperando as promessas do governo”, disse, apesar de reconhecer que o governo resolveu alguns conflitos históricos que se arrastavam há 10, 15, 20 anos, em especial.
“Houve avanços pontuais, foram vitórias históricas para nós, nós reconhecemos, mas uma política de reforma agrária que tivesse começo, meio e fim, e tivesse recurso, não houve.”
Vitória para além do Brasil
Para Stédile, a vitória de Lula foi espetacular por causa da mobilização. “Foi uma vitória espetacular, porque ela não foi fruto de alianças, conchavos ou métodos. Ela foi fruto de uma reação popular que botou milhões nas ruas.”
Na sua análise, ele traz uma somatória de fatores para o resultado: medo do fascismo, medo de perder direitos, a reação espontânea e rápida da juventude e a audácia nas redes.
“Alguns atribuem um peso superlativo às redes. Eu acho que elas contribuíram, mas decisivo foi a militância que, além de ir para as ruas com as bandeiras e mostrar a cara, foi para as periferias, falar com as pessoas”, lembrando das várias mães solteiras, chefes de família e mulheres trabalhadoras se conscientizarem.”
Falando para um veículo especializado em noticiário internacional, Stédile aponta para a importância geopolítica da vitória de Lula.
“Talvez seja um maior impacto. Foi fantástico que nós vimos muitas derrotas aqui na América Latina. Perdemos Argentina, Peru, Equador, Honduras. Na Venezuela, fomos derrotados militarmente. Então, nós íamos de derrota em derrota, então havia um desânimo. De repente, a chance da nossa eleição e com o Lula virou uma tábua de salvação. Se nós perdêssemos aqui, nós íamos demorar muitos anos para vir um reacender das massas. A nossa vitória criou um ânimo na juventude da Europa. Criou um ânimo nos palestinos, na Rússia, no Irã, na própria China”, listou.













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