Região

Casa Akotirene transforma acolhimento em enfrentamento à violência contra mulheres na periferia do DF

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Em Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal, mulheres em situação de violência doméstica, jovens em busca de qualificação profissional e famílias em vulnerabilidade social encontram, na Casa Akotirene, um espaço de apoio e formação. Há oito anos, a organização oferece acolhimento, encaminhamento para a rede de proteção, cursos gratuitos e atividades comunitárias voltadas a moradores de diferentes regiões da capital.

A Casa Akotirene integra o “Colaboratório Com Elas – Pelo Fim do Feminicídio”, iniciativa da Fiocruz Brasília que reúne cerca de 75 movimentos feministas e organizações sociais do Distrito Federal para articular ações de enfrentamento à violência contra as mulheres. Esta matéria abre uma série que apresentará, ao longo dos próximos meses, organizações que fazem parte dessa rede e desenvolvem ações nos territórios do DF.

Criada pela educadora Joyce Silva, a Casa Akotirene nasceu da mobilização comunitária e hoje funciona como um quilombo urbano voltado, principalmente, ao fortalecimento de mulheres negras. Enquanto parte da equipe atende mulheres que chegam ao espaço em busca de orientação após vivenciarem diferentes formas de violência, em outras salas são oferecidos cursos de informática, barbeiro, cabeleireiro, manicure e estética, além de oficinas e rodas de conversa voltadas ao fortalecimento da autonomia e dos vínculos comunitários.

Segundo a diretora, o trabalho desenvolvido pela instituição começa antes de qualquer encaminhamento para psicólogos, advogados ou serviços públicos. O primeiro passo é ouvir cada mulher, compreender sua realidade e identificar quais caminhos podem garantir proteção e acesso aos direitos.

“O processo de acolhimento começa ouvindo essa mulher. A partir dessa escuta, a gente entende como pode fortalecê-la. Primeiro, a gente cria esse vínculo de escuta afetiva. Depois, busca a rede de apoio para entender como pode ajudá-la. […] Investir nesses espaços não é só investir no espaço. É investir na segurança de famílias que vivem em situação de vulnerabilidade”, defende Joyce Silva.

Esse processo é acompanhado por uma articulação com a rede pública de atendimento. A Casa Akotirene mantém diálogo com equipamentos como a Secretaria da Mulher e a Casa da Mulher Brasileira para encaminhar os casos aos serviços especializados, sem deixar de acompanhar a trajetória de quem procura ajuda.

Para a diretora, o impacto desse trabalho ultrapassa o atendimento individual e alcança toda a família. “Quando a gente fala de uma mulher que tem filhos, não é só sobre ela. É sobre os filhos também. A gente está nesse desafio muito grande porque esse trabalho precisa de apoio para acontecer”, destaca Joyce Silva.

Idealizadora da Casa Akotirene, Joyce Silva coordena o trabalho de acolhimento e articula a rede de apoio para mulheres em situação de vulnerabilidade | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Acolhimento

O impacto do trabalho desenvolvido pela Casa Akotirene pode ser percebido nas histórias das mulheres que passaram pelo espaço. Entre elas está Raquel Albuquerque, que conheceu a instituição após sofrer violência doméstica.

“A Joyce abriu as portas para mim no dia que sofri a violência. Ela me ajudou muito no acolhimento, chamou a polícia, sempre me aconselhou. Desde então, nunca mais deixei a casa. Virou minha família. Sempre que tem alguma atividade, eu venho para cá, porque ela sempre foi uma mãe, uma irmã para mim”, relata Albuquerque.

Hoje, a mãe de um menino de um ano e nove meses diz que a Casa Akotirene continua fazendo parte do seu cotidiano e representa um espaço onde ela consegue reconstruir a própria vida. “Eu venho para cá e esqueço do mundo lá fora. Esqueço os problemas e me foco aqui dentro. Para mim, essa casa é uma família. É acolhimento, é felicidade. Aqui ninguém faz distinção. Meu filho também é acolhido. Todo mundo encontra um lugar”, afirma.

A história de Raquel é marcada por anos de dependência química, depressão e violência. Ela conta que viveu nas ruas durante aproximadamente uma década e sofreu agressões em dois relacionamentos. A chegada do filho foi um dos motivos que a impulsionaram a abandonar as drogas, mas ela acredita que o apoio recebido na Casa Akotirene foi fundamental para permanecer nesse processo de reconstrução.

“Ninguém precisa aceitar aquilo como se fosse uma derrota [violência]. Existem lugares como este que ajudam a gente a olhar para frente, abrir os olhos e entender que merece viver diferente. Muitas vezes, a violência leva para as drogas, ou uma coisa vai levando à outra. Aqui a gente aprende que pode recomeçar”, conta.

Oportunidades

A qualificação profissional também se tornou uma das principais frentes de atuação da instituição, oferecendo cursos gratuitos e criando oportunidades para moradores da periferia.

Foi por esse caminho que Kessia Rayane chegou ao espaço. Grávida e desempregada após retornar de Pirenópolis (GO) para morar com a mãe em Ceilândia, região administrativa do DF, ela conheceu a Casa Akotirene em um momento de dificuldade. Primeiro participou das atividades oferecidas pela instituição. Depois passou a atuar como voluntária e, atualmente, faz parte  da equipe como secretária.

“Quando eu cheguei aqui, a casa começou a me ajudar com cesta básica, absorvente e alimentos. Aos poucos fui me envolvendo, ajudando de forma voluntária, até ser contratada. Hoje eu faço de tudo um pouco: organizo atividades, tiro fotos, ajudo na cozinha, recebo as pessoas. A casa mudou a minha vida”, conta.

Para ela, o diferencial da Casa Akotirene está em oferecer oportunidades que, para muitas famílias da periferia, seriam financeiramente inacessíveis. “Onde uma mãe vai conseguir pagar um curso de jiu-jítsu para o filho? Onde um pai desempregado vai conseguir investir dois mil reais em um curso de barbeiro? Aqui essas oportunidades chegam de forma gratuita. São professores qualificados e a gente ainda ajuda a encaminhar essas pessoas para o mercado de trabalho”, afirma.

Kessia também chama atenção para o preconceito enfrentado por moradores da periferia na busca por emprego e defende que a qualificação é uma ferramenta para romper esse estigma. “Se é preto e mora na periferia, o povo já acha que você não é qualificado. Aqui a gente trabalha justamente para quebrar esse estigma. A gente qualifica jovens e adultos para que eles possam entrar no mercado de trabalho com dignidade”, ressalta.

Essa percepção também é compartilhada pelo estudante universitário Erik Lopes, frequentador da Casa Akotirene. Segundo ele, a instituição aumenta o acesso a atividades que raramente chegam aos territórios periféricos. “Poucas pessoas trazem cursos e oficinas para a periferia. Aqui chegam atividades de informática, hip-hop, esportes e outras formações que muitas vezes só existem em áreas centrais. Isso muda a realidade de muita gente e fortalece toda a comunidade”, avalia.

Secretária da instituição, Kessia Rayane chegou à Casa Akotirene como participante das atividades | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Racismo e a luta para manter as portas abertas

Sem uma fonte fixa de financiamento, a instituição depende de editais, doações, trabalho voluntário e parcerias para custear despesas como aluguel, contas de água e energia, manutenção da estrutura e a realização das atividades oferecidas gratuitamente à comunidade.

Segundo Joyce Silva, a dificuldade não está apenas na falta de recursos, mas também na resistência que iniciativas lideradas por mulheres negras ainda enfrentam para acessar investimentos e conquistar reconhecimento. “Mesmo mostrando o resultado do nosso trabalho, a gente ainda recebe olhares de desconfiança. As pessoas querem saber se a gente realmente sabe coordenar, se o nosso trabalho é sério. Essa barreira precisa ser rompida. Ela tem nome: é racismo”, afirma.

Na avaliação da diretora, esse cenário dificulta a continuidade de projetos comunitários que já demonstraram resultados concretos no enfrentamento à violência e na promoção da autonomia de mulheres da periferia.

Apesar das dificuldades, Joyce afirma que a comunidade é o principal motivo para a equipe continuar mantendo as portas abertas. “A gente desanima, sim. Mas, quando chega aqui e vê as crianças, os adolescentes e as mulheres ocupando esse espaço, aprendendo, construindo novas possibilidades, a gente entende por que continua”, destaca.

“Não é só investir no espaço. É investir na segurança. É investir em famílias que vivem em insegurança alimentar, em vulnerabilidade econômica e em tantas outras situações que atravessam o nosso território”, defende a diretora.

Cultura e futuro

Além do acolhimento e da qualificação profissional, a Casa Akotirene também tem ampliado sua atuação por meio da cultura e da produção de memórias. Um dos projetos em desenvolvimento é uma exposição colaborativa que será apresentada na Galeria do Museu do Folclore, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2027.

A iniciativa reúne fotografias, desenhos, poesias, áudios e outras expressões produzidas por moradores de Ceilândia. “A intenção é chegar às pessoas que não são reconhecidas como artistas. A gente está aceitando fotografia, desenho, poesia e até áudios de WhatsApp. A pergunta é: ‘Quem cuida de você?’. Queremos valorizar esse cuidado que já existe na comunidade e que a Casa Akotirene fortalece todos os dias”, explica a pesquisadora e voluntária da instituição, Luísa Helena Gonçalves de Melo.

As inscrições e outras informações estão disponíveis nas redes sociais da Casa Akotirene.

Depois de oito anos de atuação, a casa projeta ampliar sua estrutura para atender à crescente demanda da comunidade. Para Joyce Silva, o próximo desafio é garantir um espaço mais adequado para crianças, jovens e mulheres, com condições de oferecer um atendimento compatível com o trabalho desenvolvido pela instituição.

“Queremos um lugar mais estruturado, um laboratório, um espaço que atenda as crianças com qualidade. A gente não quer um espaço precário. A gente quer que os nossos jovens entendam que o melhor também pode ser oferecido para eles. Tudo o que a gente faz aqui vem acompanhado de consciência, identidade e pertencimento”, conclui.


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Com Informações: Brasil de Fato

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