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Cada Copa, um Brasil: como cada título brasileiro no mundial cruzou a história e a economia do país

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As cinco Copas do Mundo conquistadas pela seleção brasileira ocorreram em períodos marcados por transformações políticas, econômicas e sociais. Em cada uma delas, o futebol se cruzou com debates nacionais, expectativas da população e projetos de poder que ajudaram a definir diferentes momentos da história do país. Dos anos de industrialização acelerada ao início do governo Lula, as vitórias da seleção aconteceram em contextos além dos gramados.

Em 1958, o Brasil conquistou seu primeiro título mundial na Suécia, ganhando por cinco a dois do time do país anfitrião. Naquele ano, o país vivia o auge do governo de Juscelino Kubitschek. Eleito em 1955, JK defendia um programa baseado na expansão industrial, na abertura ao investimento estrangeiro e na modernização da infraestrutura.�

O Plano de Metas, conhecido pelo slogan “50 anos em cinco”, priorizou áreas como energia (com a construção de usinas hidrelétricas), transporte (com a expansão da malha rodoviária) e indústria de base (com o estímulo aos setores de aço, petróleo e maquinaria). No entanto, áreas como educação e alimentação não foram tão valorizadas e receberam apenas 4,3% e 3,2% das verbas destinadas ao Plano de Metas, respectivamente.�

Paralelamente, a construção de Brasília avançava rapidamente e simbolizava a tentativa de integrar o território nacional e transferir o centro político do litoral para o interior. A indústria automobilística crescia com a instalação de montadoras estrangeiras e o consumo urbano aumentava. Nesse cenário de otimismo, a conquista da seleção liderada por Pelé, Garrincha, Vavá e Zagallo reforçou a narrativa de um país que buscava se apresentar como moderno, industrializado e capaz de competir internacionalmente.

Bicampeonato

O bicampeonato conquistado no Chile, em 1962, com um placar de três a um contra a então Tchecoslováquia, ocorreu em um momento de instabilidade política no Brasil. Menos de um ano antes, o presidente Jânio Quadros havia renunciado ao cargo após apenas sete meses de governo. A saída inesperada provocou uma crise institucional que colocou em dúvida a posse do vice-presidente João Goulart. Como uma solução negociada entre militares e políticos, o Congresso implantou o parlamentarismo para limitar os poderes presidenciais.�

Ao mesmo tempo, o país vivia disputas entre grupos conservadores na sociedade civil, setores nacionalistas, sindicatos e movimentos populares, que escalavam de acordo com a situação econômica do país. Em 1960, a inflação chegou a 30,5%, e, no ano seguinte, a 47,8%, em partes devido ao endividamento externo herdado das políticas desenvolvimentistas do governo JK.�

Foto posada da Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 1962 / Hulton Archive/Getty Images

As discussões sobre reformas agrária, urbana e educacional ganhavam força e ampliavam a polarização política que culminou dois anos depois no golpe militar de 1964. Ainda assim, em 13 de julho de 1962, João Goulart sancionou a lei que criou o 13º salário, conhecido como gratificação de Natal. Naquele ano, a inflação chegou a 51,6%.

Em campo, a lesão de Pelé obrigou Garrincha, mesmo com uma febre de 38ºC, a assumir o protagonismo da equipe. Fora dele, a vitória ajudou a criar um sentimento de unidade em um país que caminhava para uma crise política cada vez mais profunda.�

Tricampeonato

O tricampeonato de 1970 foi conquistado por quatro a um contra a Itália em território mexicano. Pelé abriu o placar, o italiano Boninsegna empatou, e Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto marcaram os demais gols. O último gol, construído após uma sequência de passes envolvendo quase todo o time, é considerado pela BBCum dos mais bonitos da história do futebol.

Com a vitória, o Brasil tornou-se a primeira seleção a conquistar três Copas do Mundo e ficou com a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Zagallo entrou para a história como campeão mundial, como jogador e técnico, enquanto Pelé encerrou sua trajetória em Copas com três títulos.�

Comemoração do primeiro gol na final da Copa do Mundo de 1970 / Acervo Arquivo Nacional

Fora de campo, no entanto, o Brasil vivia um dos períodos mais repressivos de sua história. O país estava sob a ditadura militar instaurada em 1964 e era governado pelo general Emílio Garrastazu Médici. Desde a edição do AI-5, em 1968, o regime havia ampliado a censura à imprensa, suspendendo garantias constitucionais e intensificado a perseguição a opositores. Prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos políticos faziam parte da rotina dos órgãos de repressão.�

Ao mesmo tempo, a economia registrava altas taxas de crescimento no período conhecido como “milagre econômico”, impulsionado por investimentos públicos e expansão do crédito, mas ao custo político da ditadura.�

A vitória sobre a Itália foi explorada amplamente pela ditadura militar, que associou o sucesso da equipe à ideia de grandeza nacional. Slogans como “Ninguém segura este país” passaram a circular com frequência, e o tricampeonato foi utilizado para fortalecer a imagem do regime em um momento de forte repressão política.

Quarto título

O quarto título veio em 1994, nos Estados Unidos, quando o país buscava superar uma das mais longas crises econômicas de sua história recente. O governo de Itamar Franco havia assumido após o impeachment de Fernando Collor de Mello em 1992, em meio a uma crise política que abalou a confiança nas instituições. Desde os anos 1980, período que ficou conhecido como “década perdida”, o Brasil enfrentava baixo crescimento econômico, aumento da dívida externa e inflação crescente.

Durante mais de uma década, os brasileiros conviveram com hiperinflação, perda acelerada do poder de compra e sucessivos planos econômicos que fracassaram na tentativa de controlar os preços. Em alguns períodos, a inflação ultrapassou 40% ao mês. Supermercados remarcavam produtos diariamente e trabalhadores corriam para gastar o salário logo após o pagamento para evitar perdas.

Comemoração da Seleção Brasileira tetracampeã em 1994 / AP | Imageplus Foto Carlo Fumagalli

Em 1994, o lançamento do Plano Real começou a mudar esse cenário. A criação da Unidade Real de Valor (URV), seguida pela introdução da nova moeda em julho daquele ano, reduziu a inflação e trouxe maior previsibilidade para consumidores, empresas e investidores. A estabilização econômica passou a ser um dos principais temas do debate público. O então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, se tornou o principal rosto do plano e venceu as eleições presidenciais realizadas poucos meses depois da conquista da Copa.

No campo político, o país também vivia um momento de consolidação democrática. A Constituição de 1988 ainda era recente e as instituições buscavam recuperar a credibilidade após duas décadas de ditadura militar. A eleição presidencial de 1994 foi apenas a segunda por voto direto para presidente desde o fim do regime militar.

Dentro de campo, a seleção comandada por Carlos Alberto Parreira chegou à Copa cercada por críticas ao estilo de jogo. A equipe apostava em uma estratégia baseada na organização defensiva e na eficiência ofensiva. Romário foi o principal destaque da campanha e formou com Bebeto uma das duplas de ataque mais conhecidas da história da seleção. O Brasil terminou o torneio invicto, sofreu apenas três gols em sete partidas e conquistou o título após derrotar a Itália nos pênaltis na final disputada em Pasadena.

A conquista encerrou um jejum de 24 anos sem títulos mundiais e ocorreu em um momento em que parte da população voltava a acreditar na estabilidade econômica e institucional do país. Para muitos brasileiros, o tetra se tornou um dos símbolos de uma década marcada pela tentativa de deixar para trás a inflação crônica e as incertezas que marcaram os anos anteriores.

É penta

Em 2002, quando o Brasil conquistou o pentacampeonato na Coreia do Sul e no Japão, o país vivia um período de transição política e econômica. O segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso chegava ao fim após oito anos marcados pela consolidação do Plano Real, pela privatização de empresas estatais e pela ampliação da abertura da economia brasileira ao mercado internacional. Apesar da estabilidade monetária conquistada na década de 1990, os últimos anos do governo foram impactados por crises financeiras internacionais que afetaram o crescimento econômico e aumentaram a vulnerabilidade do país.

O desemprego permanecia elevado em grandes centros urbanos e o crescimento econômico era considerado insuficiente para reduzir as desigualdades sociais. Em 2001, o país também enfrentou uma crise energética que levou aos apagões. A situação expôs problemas de infraestrutura e gerou preocupações sobre os rumos da economia.

Comemoração da Seleção Brasileira pelo pentacampeonato em 2002 / AP| Imageplus Foto Carlo Fumagalli

Naquele ano, a aproximação das eleições presidenciais aumentou a instabilidade nos mercados financeiros. Investidores demonstravam incerteza em relação ao cenário político e ao futuro da política econômica. O dólar alcançou níveis recordes para a época, e o governo precisou negociar apoio financeiro com organismos internacionais para reforçar a confiança dos investidores.�

Nesse contexto, a seleção comandada por Luiz Felipe Scolari chegou à Copa cercada por desconfiança. O Brasil havia garantido a classificação apenas na última rodada das Eliminatórias Sul-Americanas e acumulava resultados que alimentavam dúvidas sobre sua capacidade de disputar o título. Paralelamente, Ronaldo retornava após graves lesões nos joelhos que o afastaram dos gramados por longos períodos e colocaram sua carreira em dúvida. Ao lado de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, no entanto, o jogador liderou uma campanha invicta que terminou com sete vitórias em sete jogos. Ronaldo encerrou o torneio como artilheiro, com oito gols, incluindo os dois marcados na vitória por dois a zero sobre a Alemanha na final.

Poucos meses depois da conquista, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu as eleições presidenciais em sua quarta tentativa de chegar ao Palácio do Planalto. A vitória representou a primeira eleição de um candidato do Partido dos Trabalhadores para a Presidência da República e marcou uma mudança no comando político do país após oito anos de governo do PSDB.

O pentacampeonato acabou se tornando um símbolo de passagem entre dois momentos da história brasileira. De um lado, encerrava um ciclo iniciado com o Plano Real e as reformas econômicas da década de 1990. De outro, antecedia a chegada de um novo projeto político que passaria a ocupar posição central no debate público nacional durante as décadas seguintes. Em um período marcado por incertezas econômicas e expectativas de mudança, a conquista da seleção ofereceu aos brasileiros um dos raros momentos de consenso e celebração coletiva daquele ano.





Com Informações: Brasil de Fato

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