Região

Brasília tem o junho mais chuvoso da história e acende alerta para a crise climática no país

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Brasília registrou, apenas na primeira quinzena de junho, o maior volume de chuva para o mês desde o início da série histórica do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em 1962. Foram 54,5 milímetros acumulados até a última segunda-feira (15), superando o recorde anterior de 43,8 mm, registrado em 1988. O índice chama atenção por ocorrer em um período tradicionalmente marcado pela estiagem no Distrito Federal, cuja média histórica para junho é de apenas 3,3 mm.

Segundo o Inmet, as chuvas registradas apenas nos dias 14 e 15 de junho somaram 36,6 mm, volume que, isoladamente, já colocaria este período entre os meses de junho mais chuvosos da série histórica.

Para compreender as causas e os impactos desse cenário atípico, o Brasil de Fato DF conversou com Flávio Montiel, diretor da International Rivers Brasil, secretário-executivo da Coalizão Pelos Rios e integrante do conselho gestor do Observatório das Águas (OGA).

De acordo com Montiel, a combinação entre frentes frias vindas da região Sul e a umidade transportada pelos chamados rios voadores da Amazônia ajuda a explicar as chuvas registradas neste início de mês.

“O que aconteceu nesta primeira quinzena de junho foi totalmente atípico, com um salto de uma média histórica de 3,3 mm para mais de 54 mm. Isso é uma combinação direta da movimentação das massas e do ciclo hidrológico, onde frentes frias encontram os rios voadores da Amazônia, gerando nuvens densas que causam esse volume de precipitação fora do padrão”, explicou o diretor da Internacional Rivers.

Para o especialista, episódios como este refletem alterações cada vez mais frequentes nos padrões climáticos observados em diferentes regiões do país.

“Nós não vivemos hoje apenas uma mudança climática, nós estamos enfrentando uma verdadeira crise climática com impactos severos e imediatos. O que os pesquisadores projetaram para daqui a dez anos já está ocorrendo hoje, com uma frequência muito maior de eventos extremos, como essas chuvas totalmente fora do calendário que estamos vendo em Brasília”, alertou o especialista.

Infraestrutura

As chuvas também reacenderam discussões sobre a capacidade da infraestrutura urbana da capital de responder a eventos climáticos extremos. Mesmo após intervenções em sistemas de drenagem, pontos tradicionalmente vulneráveis voltaram a registrar alagamentos durante as precipitações mais intensas.

Segundo Montiel, os impactos não se restringem às inundações. O excesso de água em curto espaço de tempo também aumenta o risco de queda de árvores e sobrecarrega sistemas urbanos planejados para uma realidade climática diferente da atual.

“As tesourinhas continuam inundando até o teto e os carros boiando, o que mostra que nossa infraestrutura precisa de adaptação imediata para essa nova realidade de crise climática. Esses problemas, que passam de governo em governo, acendem um sinal de alerta sobre a necessidade de usar fundos federais para projetos de resiliência urbana e proteção da nossa população contra tragédias maiores”, defendeu Montiel.

Outro efeito observado é o aumento da turbidez da água nos reservatórios que abastecem o Distrito Federal. Com mais sedimentos sendo carregados pelas chuvas, o tratamento realizado pela Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) tende a se tornar mais complexo.

Gráfico do Inmet mostra o volume de chuva acumulado em Brasília na primeira quinzena de junho, superando a média histórica. Crédito: Reprodução/Inmet

Gestão da água

Apesar do aumento temporário dos níveis dos reservatórios, o especialista alerta que episódios isolados de chuva não resolvem os desafios estruturais relacionados à segurança hídrica.

Montiel defende que o debate sobre a gestão das águas precisa considerar os diferentes usos do recurso e ampliar a participação social nas decisões sobre sua distribuição e preservação.

“O governo pede que a sociedade economize água e tome banhos curtos em períodos de seca, enquanto continua concedendo outorgas para a agropecuária e mineração sem os critérios devidos. O setor agropecuário consome cerca de 600 bilhões de litros de água por ano no Brasil, e é inaceitável que o ônus do racionamento e da economia sempre recaia apenas sobre as famílias e o cidadão comum”, pontuou.

Para o especialista, os Comitês de Bacias Hidrográficas devem ter papel mais ativo na formulação das políticas públicas relacionadas aos recursos hídricos.

“A Lei das Águas de 1997 foi um grande avanço para a época, mas ela foca muito no uso múltiplo e econômico, deixando de lado a proteção real dos nossos rios. Precisamos de uma política que garanta que a água seja tratada como um bem comum e um direito humano fundamental, priorizando sempre a vida e o consumo da sociedade antes de atender a interesses puramente comerciais ou privados”, analisou.

Flávio Montiel, diretor da International Rivers Brasil | Crédito: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

Proteção permanente

Entre as propostas defendidas por organizações socioambientais está o Projeto de Lei nº 2.842/2024, de autoria do deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), que cria a Política Nacional de Proteção de Rios e o Sistema Nacional de Rios de Proteção Permanente.

A proposta prevê mecanismos específicos de proteção para rios considerados estratégicos do ponto de vista ecológico, social ou econômico.

“O projeto de lei que elaboramos na Coalizão Pelos Rios busca criar regras eficazes para que os nossos rios possam correr livres e saudáveis para as presentes e futuras gerações. Ele não se coloca contra a infraestrutura, mas propõe que o desenvolvimento seja planejado de forma a respeitar os processos ecológicos e a segurança hídrica, evitando danos irreversíveis como os que já vimos em tantas bacias pelo país”, concluiu Flávio Montiel.

O projeto tramita na Câmara dos Deputados e recebeu parecer favorável da deputada Duda Salabert (Psol-MG) na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Para especialistas, o recorde de chuvas registrado em Brasília reforça a necessidade de ampliar o debate sobre adaptação climática, proteção dos recursos hídricos e planejamento urbano diante de um possível Super El Niño.


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Com Informações: Brasil de Fato

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