Às vésperas do centenário de Fidel Castro, comemorado no próximo dia 13 de agosto, o fotojornalista Giovanni Bello lança seu livro de estreia, “Se murió Fidel” (editora Vento Leste), sobre a morte do líder revolucionário em novembro de 2016. A obra retrata como ficou Cuba em um momento crucial de transição, nos dias imediatamente posteriores à morte do grande líder da Revolução.
Bello conta que estava de férias em Havana, quando, no final do segundo dia, a morte de Fidel Castro foi anunciada. Sem credencial de imprensa, decidiu correr o risco e fotografar mesmo assim, sem aval oficial. Nos nove dias que se seguiram, circulou entre as multidões nas ruas da capital cubana e de Santiago de Cuba durante o luto nacional.
“Eu estava em um hostel e ouvi uma senhora atendendo o telefone, ouvindo algo do outro lado e, com uma expressão preocupada, disse: ‘Se murió Fidel?’. Os sites não estavam dando a notícia ainda. Então eu peguei a câmera e fui para a rua para checar a informação. Saí meio desesperado, porque, meu Deus, se isso está acontecendo, é histórico”, relata ao BdF Entrevista.
O fotógrafo conta que, apesar de estar em férias, havia levado sua câmera pessoal para fazer alguns registros de Cuba. No entanto, a qualidade do equipamento não era tão boa para fazer vídeos. Diante da confirmação da notícia, entrou em contato com o jornal de onde era colaborador no Brasil e se ofereceu para fazer a cobertura. “Eu podia escrever e podia fotografar, e foi isso que eu comecei a fazer”, conta.
Giovanni Bello conta que, nas horas seguintes à morte, pensou que ia encontrar um movimento nas ruas, a população consternada e falando sobre isso, mas se surpreendeu. “Era um silêncio. E eu tinha visto como é Havana, muito barulhenta, musical e tudo mais. E aí ele morreu e as ruas ficaram em silêncio e nada estava acontecendo”, lembra.
Para ele, o silêncio era uma mistura de tristeza pelo símbolo e respeito que Fidel inspirava, e de expectativa pelo que estava por vir. “No segundo dia depois da morte, o governo anunciou a programação em volta do luto, a comissão dos funerais, e foi muito simbólico o que eles organizaram. A Revolução Cubana, em 1959, começou em Santiago de Cuba e terminou em Havana, com a Caravana de la Libertad, em que os barbudos tomaram o país, enfim, fizeram a revolução. O que eles fizeram foi o contrário. Eles pegaram as cinzas do Fidel e levaram de Havana a Santiago de Cuba em um cortejo fúnebre que passou por todo o país, quase todas as províncias, lentamente, para que as pessoas prestassem sua homenagem”, explica.
Bello conta que acabou sendo dispensado da cobertura pelo jornal, mas compreendeu que estava testemunhando um momento único na história e seguiu fazendo o registro documental para ele mesmo. Foi aí que passou a ter liberdade total para coletar o material que se transformaria em livro. “Eu tirei por volta de 2 mil, 3 mil fotos, e o livro virou 60 fotos. Nesses tempos de redes sociais, fazer algo físico tem uma importância maior hoje em dia. Tem um peso até maior do que antes”, avalia.
O fotojornalista avalia que o livro é um registro histórico e um testemunho em memória de uma figura que, “goste ou não”, teve grande relevância política. “Fidel Castro é indiscutivelmente uma figura histórica importantíssima para a América Latina, para Cuba, é óbvio, mas até para a história mundial. Ele representa muita coisa, ele representa esse sonho socialista, que alguns diriam utópico, outros não. “Mas uma resistência também, um último enclave de tentativa de fazer algo diferente do que a gente tem por aqui e pelo mundo inteiro”, defende.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.














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