Um vídeo que veio a público na segunda-feira (22) mostrou 12 policiais militares invadindo uma escola de ensino infantil em São Paulo para questionar a direção por causa de uma atividade pedagógica.
O caso aconteceu na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Antônio Bento, na zona oeste da capital paulista, em novembro do ano passado, mas as imagens das câmeras dos PMs foram divulgadas nesta semana. Na ocasião, segundo reportagem do g1, o pai de uma aluna de quatro anos teria acusado a escola de “ditar sua ideologia” ao questionar uma atividade sobre cultura afro-brasileira desenvolvida pela escola.
Em março, a Polícia Civil indiciou por intolerância religiosa o pai da aluna, que também é soldado na PM. Segundo ele, a escola estaria obrigando a criança a ter “aula de religião africana”.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), avalia que a atitude dos policiais vai contra a própria ação policial.
“É uma afronta à educação e à instituição de ensino. A polícia, caso tivesse sido chamada para cumprir seu objetivo constitucional, tem que resguardar a lei. E essa escola estava simplesmente seguindo estruturalmente a lei 11.645/2008, que obriga todos os estabelecimentos de ensino de educação básica a informar os estudantes sobre a tradição afro-brasileira e indígena”, pontua.
“Ou seja, eles [os policiais] afrontaram a legislação, a própria função policial, além daquelas famílias e o Estado brasileiro.” Segundo o educador, os agentes deveriam responder a um processo administrativo pela atuação no caso.
Daniel Cara elogia a postura firme da diretora da escola, que, nas imagens, não se dobra aos PMs que estavam fortemente armados. “Ela provou ser uma educadora com ‘e’ maiúsculo. A escola muitas vezes ultrapassa em muito as funções que deve exercer pelo fato de que o Brasil é um país em que o Estado não está em todos os lugares. E o único equipamento presente na maior parte do país são as escolas. E por isso superam em muito o papel da educação no sentido de ensino e aprendizado. Acabam sendo, portanto, centros comunitários, que atendem a população. E educadores de verdade não se negam a essa função”, destaca.
Além disso, Cara relata que, embora seja lei, nem todas as instituições respeitam a inclusão em seus currículos escolares das disciplinas de tradições afro-brasileiras. “Ainda existe um enorme desconhecimento com relação às tradições e à excelente bibliografia que existe de história africana e também indígena. As pessoas tratam a África como se fosse uma coisa só, mas ela é muito diversa. O mesmo acontece com a história indígena, que é heterogênea e plural”, conta.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.













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