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Análise: Acordo entre EUA e Irã era momento que Netanyahu mais temia

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O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, estava reunido com o gabinete de segurança em um bunker, preparado para a possibilidade de mísseis balísticos iranianos atingirem o local, quando o telefone tocou.

Na linha estava o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ligando para dar notícias de um memorando de entendimento entre os EUA e o Irã.

Essa foi a segunda ligação entre os dois líderes no domingo (14).

Na primeira, Trump disse ao líder israelense que estava “muito irritado” com o ataque de Israel a Beirute e que Netanyahu “não tem o menor juízo”, segundo o jornal Axios.

Nesta segunda-feira (15), Trump o informou que a guerra que haviam iniciado juntos no final de fevereiro estava efetivamente encerrada.

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Quando o presidente Barack Obama assinou o acordo nuclear com o Irã em 2015, Netanyahu o rejeitou publica e veementemente.

Ele discursou perante o Congresso, sabendo que contava com o apoio dos republicanos, ao criticar duramente tanto o acordo quanto o presidente que o negociou. Desta vez, o primeiro-ministro israelense praticamente não se pronunciou publicamente sobre o homem que firmou o acordo.

O acordo é o cenário que as autoridades israelenses temiam há semanas: ele poderia reabrir o Estreito de Ormuz e levar ao alívio das sanções econômicas contra Teerã, ao mesmo tempo que adiaria as negociações sobre as questões que eram os objetivos declarados de guerra de Israel.

O memorando de entendimento deixa para uma discussão posterior os temas espinhosos do programa nuclear iraniano e seu arsenal de mísseis balísticos, mesmo oferecendo um alívio econômico ao regime que Netanyahu desejava derrubar.

Quando Netanyahu finalmente se pronunciou publicamente após o anúncio do memorando de entendimento por Trump, já haviam se passado horas desde que outros políticos israelenses se manifestaram.

Em uma coletiva de imprensa nesta segunda-feira (15), Netanyahu mal mencionou o acordo durante os oito minutos de discurso de abertura.

Talvez ainda mais surpreendente seja o fato de ele mal ter mencionado Trump em seus comentários iniciais, em vez de se gabar do relacionamento entre eles, como tem feito regularmente há anos.

Questionado sobre o acordo posteriormente, ele disse: “Há casos em que o presidente Trump e eu não concordamos. Sou responsável pelos interesses de segurança de Israel, e isso precisa ser feito com sabedoria”.

O acordo também pode acarretar novas restrições à capacidade de Israel de combater o Hezbollah, já que o Irã exige uma retirada militar israelense completa do sul do Líbano, algo que Israel já declarou não estar disposto a fazer.

Nesta segunda-feira (15), um alto funcionário americano disse a repórteres que a retirada “não era uma condição do acordo”.

“Se o Irã não for capaz de controlar o Hezbollah e atacar posições ou cidades israelenses, Israel terá o direito de se defender e responder”, alegou o oficial.

Embora Netanyahu tenha evitado até agora um confronto público direto com Trump, figuras de todo o espectro político israelense têm se mostrado bem menos contidas.

Os próprios parceiros de Netanyahu na coalizão, o ministro das Finanças Bezalel Smotrich e o ministro da Segurança Nacional Itamar Ben Gvir, classificaram o acordo como “perigoso” e declararam que Israel não se considera vinculado a ele.

O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, que concorre para destituir Netanyahu, classificou o ocorrido como “uma virada perigosa na segurança de Israel”.

O ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, Gadi Eisenkot, também um dos principais candidatos ao cargo de primeiro-ministro, descreveu-o como um “resultado lamentável” fruto da falta de estratégia e coragem.

Meses atrás, fontes disseram à CNN que sua equipe política havia planejado um caminho claro para a eleição: uma vitória rápida sobre o Irã, uma visita triunfal à Casa Branca em setembro, uma revanche de Trump a Israel na reta final e uma avalanche de imagens presidenciais impulsionando Netanyahu até as urnas em outubro.

Em vez disso, as discussões para pôr fim à guerra estão tensionando as relações entre os dois líderes. Uma série de desentendimentos públicos expôs a pressão de Trump sobre Israel para que este encerre a guerra e limite suas ações no Líbano.

Seus apelos veementes para que Israel cesse fogo e os anúncios sobre as negociações nucleares na Truth Social, bem como um comentário recente à ABC News questionando se Netanyahu ainda deseja “continuar” na política, pegaram o primeiro-ministro israelense de surpresa, segundo fontes.

O consultor político Nadav Strauchler, que já trabalhou com Netanyahu, descreveu o momento atual como um “ponto de teste”, mas não um ponto de ruptura.

“Eu não decretaria o fim dessa relação tão rapidamente”, disse ele, acrescentando que, com as eleições de outubro a cerca de quatro meses de distância, a relação pode se recuperar, e prevendo que Trump ainda será uma peça central na campanha.

“Trump já se irritou antes — com Netanyahu, com outros líderes — e as coisas tendem a voltar ao normal”, disse Strauchler à CNN.

“Até as últimas duas semanas, quase não havia divergências entre eles. Mesmo agora, Trump ainda o respeita e não está fechando as portas. Ainda restam 60 dias para influenciar o acordo nuclear final. Enquanto houver uma vela acesa e a janela aberta, Netanyahu tentará entrar pela chaminé”, adicionou.

A mudança de humor é fácil de perceber no Canal 14, a rede de televisão pró-Netanyahu em que apresentadores que antes chamavam Trump de o maior presente para o povo judeu agora o denunciam como um “perdedor” que enfraqueceu tanto Israel quanto os Estados Unidos.

Uma fonte do Likud (o Congresso israelense) chegou a compará-lo, em conversa privada, ao imperador do Japão em um momento de derrota.

“Neste momento, Trump é extremamente impopular entre a base de apoio de Netanyahu”, disse a fonte, observando, porém, que essa mudança ainda pode ser temporária, considerando as eleições de outubro.

Os números contam a mesma história. Uma pesquisa recente do Instituto da Democracia de Israel, publicada na semana passada, revelou uma queda acentuada na parcela de israelenses judeus que consideram a segurança de Israel uma preocupação central para Trump — de 64% em março para 41% neste mês, o nível mais baixo registrado desde o final de 2024.

“A popularidade de Trump está em declínio”, escreveu o analista político de direita Mati Tuchfeld no jornal Maariv na semana passada, “não um colapso ou uma quebra, mas a tendência é de queda”.

A equipe de campanha de Netanyahu, relatou ele, está agora buscando uma nova mensagem porque uma campanha “Fortes Juntos” com os dois líderes “não alcançará mais o mesmo efeito que se esperava inicialmente”.

Líderes da oposição também estão de olho nessa mudança. Uma fonte familiarizada com seus planos disse à CNN que, se Trump apoiar Netanyahu, seus oponentes pretendem usar isso contra ele, apresentando o fato como prova de que ele “se tornou um cachorrinho e abandonou os interesses de segurança de Israel”.

Figuras da oposição, segundo a fonte, têm enviado mensagens aos contatos de Trump, pedindo que não apoie Netanyahu nem participe ativamente de sua campanha.

No entanto, a equipe do premiê ainda acredita que se trata apenas de um obstáculo temporário. Nos bastidores, uma fonte israelense disse à CNN que Netanyahu está buscando discretamente uma reunião a sós com o presidente americano — algo que seu gabinete negou.

Tal encontro permitiria a Netanyahu transmitir suas preocupações sobre o iminente acordo com o Irã a Trump. E daria ao israelense a moeda de troca política que ele esperava usar: uma demonstração de sua proximidade com o americano.



Fonte: CNN Brasil, todos os direitos reservados

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