Nesta sexta-feira (3), a jornalista Vanessa Oliveira lança o livro “Google em Cuba: colonialismo de dados na reaproximação Washington-Havana”, que fala sobre como a fronteira digital se tornou a nova trincheira contra o imperialismo estadunidense.
A autora, que é também professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), conta que o livro surgiu a partir de uma pesquisa realizada entre 2014 e 2019. O Google passou a operar na ilha caribenha em 2019, após um acordo com a empresa estatal de telefonia cubana.
Ela identifica que, mesmo antes da autorização de entrada do Google no país, a empresa já tentava estabelecer negociações sem autorização, já que os Estados Unidos impunham um bloqueio total a Cuba no que diz respeito a relações econômicas e comunicacionais.
“Em 2014, isso era praticamente impossível. E esse processo foi se construindo de uma maneira bastante ardilosa. É importante lembrar que era um período em que ainda não se falava tanto sobre colonialismo de dados, sobre a nocividade das chamadas big techs, sobre a quantidade de bilionários por trás dessas empresas, suas intenções e toda a modulação de comportamento promovida por suas plataformas”, relata em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Oliveira se recorda de que havia um pensamento de que a internet seria capaz de levar informação e conectar realidade em diversos lugares. Em um primeiro momento, foi construído no imaginário popular que esse movimento do Google seria benéfico para Cuba. Inclusive, parte da esquerda abraçou essa ideia de avanço. “A entrada do Google naquele momento, que vinha de um processo de aproximação de Obama e Raul Castro, acaba servindo a uma atualização dessas tensões entre os países.”
Vanessa Oliveira conta que esse processo acabou fazendo com que Cuba deixasse, em um primeiro momento, de fomentar as próprias tecnologias e a construção de uma soberania digital. Dentro desse contexto, ela relata em seu livro iniciativas que resistem a essa influência tecnológica estadunidense.
“No livro, eu destaco pelo menos três iniciativas comunitárias de redistribuição do sinal de internet. Elas são ilegais ou se situam em uma zona cinzenta da legislação do próprio país. Apresento essas experiências como um fruto da Revolução Cubana, que investiu bastante em tecnologia, dentro das possibilidades do país, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, além de manter um investimento contínuo em educação. Quando o mundo começou a se conectar de forma massiva, surgiu um desafio particular. Hoje, vivemos um ambiente amplamente colonizado por plataformas digitais”, avalia a autora, que cita como exemplos as big techs Google, Microsoft, Meta e empresas ligadas ao Elon Musk.
Oliveira relata a história da SNET, apelido de uma rede chamada StreetNet. Ela foi criada por estudantes de programação da Escola de Tecnologia de Cuba. “Esses jovens, todos com menos de 20 anos, queriam simplesmente jogar videogame juntos. Primeiro conectaram os computadores de dois deles. Depois ligaram um andar inteiro de um prédio. Em seguida, conectaram um prédio ao outro. A iniciativa cresceu até alcançar nove bairros diferentes de Havana, todos interligados por uma rede offline. Dentro dessa rede havia, por exemplo, uma Wiki local”, conta.
E também manifesta preocupações com os rumos da Inteligência Artificial. “Algumas tecnologias chegaram mais tarde em Cuba. E isso impõe um desafio ainda maior”, avalia.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.













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