Durante muito tempo fizeram a classe trabalhadora acreditar que era normal trabalhar seis dias para descansar um. Que o normal da vida adulta é chegar em casa sem tempo para ver os filhos, estudar, cuidar da saúde, viver a própria vida ou mesmo descansar. Que exaustão era sinônimo de responsabilidade, que o adoecimento físico e mental era inevitável para colocar comida na mesa. Mas o povo brasileiro começou a perceber que isso nunca foi normal.
Quando milhões de trabalhadores e trabalhadoras começaram a dizer que não aceitam mais viver sob a escala 6×1, ficou evidente que a discussão vai muito além da jornada de trabalho. O que estava sendo colocado em debate era o modelo de país que queremos construir e a quem ele deve servir.
Essa mobilização expôs um conflito que sempre existiu, mas que nem sempre estava visível para a sociedade. De um lado, grandes empresários que lucram com um modelo de exploração que sacrifica a saúde, o tempo e a dignidade de quem realmente produz a riqueza desse país. Do outro lado, trabalhadores e trabalhadoras que decidiram afirmar que ter tempo para viver e descansar não pode ser um privilégio.
Para milhões de brasileiros e brasileiras, um único dia de folga por semana (e às vezes nem isso) não basta. Num Julho das Pretas esse debate também nos convidou a olhar ainda mais as pessoas que sentem de forma mais dura os efeitos desse modelo de exploração.
A população negra, especialmente as mulheres negras, continuam em postos mais precarizados, recebem menores salários, enfrentam as jornadas mais exaustivas e ainda acumulam, na maior parte das vezes, o trabalho doméstico e de cuidado, quase sempre invisível. Essa é a disputa que move o debate pelo fim da escala 6×1.
Para mim, as lutas da classe trabalhadora são a base sólida para a caminhada política e para a compreensão da sociedade. Esse compromisso e urgência é porque cheguei aqui através da luta pelo reconhecimento do trabalho dos camelôs. Recentemente, estive junto a juristas trabalhistas debatendo o fim da escala 6×1 e expliquei que essa luta é importante para mim porque minha vida foi marcada pela escala 7×0. E essa reflexão trouxe essa discussão aqui.
Entender a importância da luta organizada e coletiva em torno das melhores condições de vida é uma urgência de quem sobreviveu à precarização. Camelô não era reconhecido enquanto trabalhadoras e trabalhadores. Quanto mais precarizado o posto de trabalho, menos temos possibilidade de ter uma escala de trabalho regular.
Mulheres negras terão menos acesso a direitos sociais e trabalhistas como licença maternidade — no meu caso, eu tinha que trabalhar para sobreviver no pós-parto. É por isso que essa agenda tem um apelo social tão forte, que a maior parte de trabalhadoras e trabalhadores conhecem a face da exploração, da exaustão e da precarização, sobretudo, o nosso povo negro.
Só a luta articulada e organizada transforma vidas!
A luta pela mudança na jornada de trabalho é uma pauta histórica da esquerda brasileira, mas a retomada do debate público na força e forma dele são conquistas exitosas e fruto de articulações acertadas.
Da experiência de quem viveu essa realidade todos os dias, nasceu também a mobilização liderada por Rick Azevedo, que era balconista de farmácia. O que começou como um desabafo sobre a rotina exaustiva se transformou no Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), dando organização a uma indignação que já era compartilhada por milhões de trabalhadores e trabalhadoras.
As redes sociais foram tomadas por relatos de quem mal conseguia acompanhar o crescimento dos filhos, abandonava os estudos por falta de tempo ou simplesmente já não conseguia imaginar uma vida além do trabalho.
Milhões de pessoas perceberam que aquilo que parecia um problema individual era, na verdade, uma realidade compartilhada. A revolta virou organização, a organização virou mobilização e a mobilização ganhou as ruas. Também ficou claro que, pra transformar essa luta em direitos, era preciso disputar as instituições.
Com a força dessa mobilização, a pauta chegou ao Congresso Nacional por meio da PEC protocolada por Erika Hilton, construída em diálogo com o VAT, movimentos populares e centrais sindicais. A proposta reduz a jornada de trabalho para 40 horas semanais com o fim da escala 6×1, garantindo dois dias de descanso sem redução salarial.
Fazemos questão de destacar o caminho dessa luta para reforçar o protagonismo da classe trabalhadora nesse processo e mostrar que, quando o povo organizado pressiona, a política responde e os direitos avançam.
Basta lembrar da luta pelo 13º salário. Antes de se tornar um direito, muita gente dizia que ela quebraria as empresas, geraria desemprego e faria a economia entrar em colapso. A mobilização da classe trabalhadora falou mais alto e hoje ninguém imagina um Brasil sem esse direito.
Foi assim com a jornada de oito horas, as férias remuneradas, a licença-maternidade e tantas outras conquistas. Nenhuma delas nasceu da boa vontade de quem estava no poder, todas foram fruto da organização coletiva e popular.
Se a sociedade já deu sua resposta, por que essa pauta enfrenta tanta resistência?
Porque diminuir a jornada de trabalho sem redução salarial significa mexer na forma como a riqueza é distribuída no nosso país. Significa reconhecer que o tempo de quem trabalha também tem valor. E isso confronta um modelo que, há décadas, trata a exaustão da classe trabalhadora como algo natural.
Os argumentos usados contra o fim da escala 6×1 são conhecidos. Dizem que as empresas vão quebrar, que haverá uma onda de desempregos, que a economia não suporta essa mudança. Mas basta olhar para nossa própria história para perceber que esse discurso sempre aparece quando a classe trabalhadora conquista direitos.
É por isso que boa parte da resistência à PEC vem justamente dos setores que historicamente defenderam a retirada de direitos trabalhistas, a precarização das relações de trabalho e a redução da proteção social. Estamos diante de uma escolha política.
Também é importante reconhecer que essa luta encontrou, no governo Lula, disposição para dialogar com os movimentos sociais e construir caminhos para que esse debate avance. Isso não significa que a conquista esteja garantida nem que a mobilização possa diminuir. Muito pelo contrário.
Se a nossa trajetória enquanto sociedade ensina alguma coisa, é que nenhum direito vem de graça, ele é conquistado quando o povo se organiza, ocupa as ruas e disputa ideias. Foi assim antes e é assim agora.
Por isso, a aprovação da PEC depende de manter viva a mobilização que trouxe essa pauta até aqui. Depende da pressão da sociedade sobre um Congresso inimigo do povo que, na maioria das vezes, responde mais a interesses econômicos do que às necessidades do povo brasileiro. Depende de trabalhadores e trabalhadoras dizendo, com a mesma força que transformou essa pauta em debate nacional, que viver também é um direito.
O fim da escala 6×1 não resolve sozinho todos os problemas do mundo do trabalho. Ainda temos que lidar com a informalidade, com a pejotização abusiva, os baixos salários, a uberização e outras formas de exploração que atingem milhões de brasileiros e brasileiras todos os dias. Mas essa mobilização já está produzindo uma transformação fundamental.
Eu acredito que trabalhar deve garantir condições dignas para viver, não impedir que se viva. É por isso que insisto que a luta pelo fim da escala 6×1 é, na verdade, a luta por um outro Brasil. Um Brasil onde a economia esteja a serviço da vida, e não a vida a serviço da economia.
Também entendemos que não existe debate sobre o mundo do trabalho sem olhar para o racismo. São trabalhadores e trabalhadoras negras que ocupam, historicamente, os postos mais precarizados e recebem os menores salários. Por isso, também é muito simbólico que essa luta tenha sido impulsionada por lideranças negras.
Quando a classe trabalhadora decide não aceitar mais o inaceitável, ela não muda “só” a jornada de trabalho, ela começa a mudar o rumo do país.












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