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A extração da vida | Brasil de Fato

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O capitalismo não deixou nada intocado. Aprendemos a ver tudo como recurso: o tempo, a atenção, a memória, o afeto, o lazer, o espaço, a cultura. Tudo precisa ser útil e gerar valor, ter uma função mensurável dentro da lógica da acumulação. Aquele pôr-do-sol vira postagem, o encontro é networking e a cultura é entretenimento. O motor disso é a nossa atenção, a matéria-prima para o algoritmo.

Esse processo não é novo. A crítica da mercadoria tem pelo menos duzentos anos. Mas o que vivemos hoje é uma aceleração tal que não sobra espaço para o que não serve. Agora, assistimos nossas cidades serem transformadas nesse sentido. Da sua concepção ao modo de deslocamento, tudo sempre foi planejado para servir a essa vida miserável de casa-trabalho, mas tínhamos momentos e espaços de respiro no meio. Atualmente, não. É um fluxo contínuo, onde cada deslocamento é monitorado e convertido em dados. O que não se encaixa nessa lógica é tratado como obstáculo.

O conceito de cultura, as redes sociais e o direito à cidade se entrelaçam como o núcleo desse plano perverso. Cada um, a seu modo, mostra como o capitalismo contemporâneo opera não mais na superfície das relações, mas na própria substância do que é humano.

A cultura como coletividade

Gilberto Gil disse, em 2003, que cultura é igual arroz e feijão: necessidade básica e fundamental. A frase carrega uma simplicidade enganosa. O que ele estava afirmando é que a cultura não é um luxo, é o que nos constitui como seres sociais e o que permite que uma comunidade se reconheça como tal. A cultura, na visão de Gil, é ordinária no sentido mais amplo possível. É uma linha que costura a vida coletiva.

O que aconteceu, desde então, é o contrário. A cultura foi transformada em produto e os diversos nomes que dávamos se transformaram em algo mercadológico: o que era cotidiano virou nicho, sentar no bar virou experiência e encontro virou evento. O que não pode ser vendido, como a conversa na calçada, o olhar no olho, a música que não está na plataforma, é tratado como sobra, ruído e algo a ser eliminado.

A indústria cultural, como transformação da arte em mercadoria, chegou ao seu estágio final. Não se trata mais de vender um produto cultural. Trata-se de colonizar a própria capacidade de produzir cultura. A música é feita para a plataforma, o filme para o streaming e a série para maratonar. O que não se enquadra nesse formato não existe. O que não gera dados não é real.

O patrimônio como obstáculo

Na coluna de Lucas Chiconi Balteiro, “A ordem é para destombar”, no Le Monde Diplomatique, é exposta uma política não dita de desmonte do patrimônio cultural popular. Não se trata de um acaso, mas de uma diretriz: o que não gera lucro não merece existir.

O caso da Vila João Migliari é exemplar. Um conjunto de casas operárias no Tatuapé foi demolido em etapas, primeiro pela construtora que as comprou, depois pelo herdeiro que quis impedir o tombamento. As casas que sobraram foram intencionalmente depredadas para mobilizar a rejeição da população ao tombamento. O recado é claro: demolir compensa. Destruir o patrimônio antes que ele seja protegido é mais vantajoso financeiramente do que preservá-lo.

O Conpresp, conselho que deveria proteger o patrimônio, opera com dois pesos e duas medidas. O prédio da Escola Panamericana de Artes, em Higienópolis, é preservado (por enquanto). As casas operárias do Tatuapé, não. O Presídio do Hipódromo, no Brás, espaço de tortura da ditadura, é ameaçado. Os núcleos antigos da Freguesia do Ó e da Penha são alvos de destombamento. O que se preserva é o patrimônio das elites, aquilo que nos diferencia internamente, não o que nos une. O que se destrói é o patrimônio popular.

Sim, estamos falando de especulação imobiliária. Ela não apenas constrói prédios, ela redefine o que pode existir no espaço urbano. O imóvel que não gera retorno financeiro é um problema, assim como a memória que não pode ser convertida em capital. A ordem é para destombar, porque o patrimônio que não gera lucro não interessa; é o uso que não serve.

É a mesma lógica que trata a cultura como obstáculo. O que não é útil ao mercado é descartável. O que não pode ser vendido é um entrave. A cidade que se quer construir é a cidade sem memória, onde tudo é novo, limpo e vazio.

A atenção como matéria-prima

Para que se trate a cidade e a cultura desta forma, têm que haver convencimento. Aí entram as big techs. Peter Schmidt, no programa Roda Viva, trouxe uma metáfora precisa para descrever o que está em jogo: o “human fracking” ou fraturamento humano. No fracking tradicional, a indústria injeta produtos químicos no subsolo para quebrar a estrutura da terra e forçar a extração de petróleo. No fraturamento humano, as plataformas digitais injetam volumes massivos de conteúdo em nossas mentes, fragmentando nossa capacidade de focar, imaginar e pensar em longas durações.

A diferença entre a televisão e as redes sociais é crucial. Na TV, você olha para a tela, e a tela não olha para você. Nas redes, a tela te observa, te conhece, te classifica. Você olha para o abismo e o abismo olha para você. O algoritmo não é neutro: ele é desenhado para maximizar o tempo de tela e prender sua atenção para extrair cada segundo de engajamento que pode ser convertido em receita publicitária.

Schmidt vai além e diz que também a política foi invadida pela lógica do espetáculo. O que importa não é a qualidade da decisão, mas o engajamento que ela gera. A vida pública virou um reality show, em que a profundidade é substituída pelo clique. Todos os aspectos da nossa vida controlados por esta lógica de destruição, e nós ainda ajudamos a ser assim. Ou você se imagina existir sem Instagram?

A saída que ele propõe é o “ativismo da atenção”, uma resistência coletiva contra a soberania das big techs. Não se trata de força de vontade individual, mas de um movimento que resgate espaços de convivência sem telas e tudo que elas buscam te obrigar a aceitar. O que está em jogo é a própria capacidade de estar junto, de conversar sem intermediação, de ocupar o tempo sem que ele seja extraído.

A lógica única de um mesmo processo

O que une a cultura como mercadoria, o patrimônio como obstáculo e a atenção como matéria-prima é a mesma lógica: o desprezo pelo que não tem valor financeiro. Não há fronteira entre o que é material e o que é imaterial. O espaço físico e o tempo vivido, a memória e a atenção, a cultura e o afeto: tudo é convertido em recurso e submetido à lógica da acumulação.

O que se perde é a possibilidade de existir fora da utilidade. De estar sem produzir. De ocupar sem consumir. De encontrar sem finalidade. De olhar sem ser observado. De lembrar sem que a memória seja monetizada.

A cidade que se constrói assim é uma cidade que não cabe. Não cabe quem não produz, quem não consome e quem não se adequa. O espaço público é redesenhado para o fluxo do capital, não para a permanência das pessoas. O tempo é organizado para o trabalho e o consumo, não para o encontro e a contemplação. A cultura é moldada para o entretenimento, não para a formação.

Não se trata de saudade de um passado que não volta. Trata-se de perceber que o presente está sendo conduzido por uma lógica que não deixa espaço para o que é humano. O capitalismo não é apenas um sistema econômico. É uma forma de vida que coloniza, transforma e destrói o que não lhe serve. O que sobra, no fim, é a paisagem de uma cidade onde tudo pode ser vendido, até a capacidade de existir.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.





Com Informações: Brasil de Fato

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