O projeto Lanceirinhos Negros realiza no sábado (12), em Porto Alegre, a 6ª edição do acampamento que apresenta a Revolução Farroupilha às crianças sob uma perspectiva antirracista. Promovida pelo Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomode, a atividade recupera a memória e o protagonismo dos Lanceiros Negros, soldados negros que tiveram participação importante no conflito ocorrido entre 1835 e 1845.
O acampamento será realizado na Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora, espaço de referência para a comunidade negra de Porto Alegre e do Brasil. A programação começa às 17h de sábado e segue até as 12h de domingo (13), com atividades de música, dança, artes visuais, teatro, culinária e contação de histórias, além da disponibilização de trajes aos participantes.
A atividade reúne alunos de escolas públicas, crianças do projeto Nossa Identidade e outros jovens interessados na vivência. A proposta é contribuir para a formação de crianças orgulhosas da própria cultura e capazes de conhecer e contar a própria história.
A iniciativa teve origem em uma inquietação da educadora Edjana Deodoro que, em conjunto com a mãe, a mestra da cultura afro-gaúcha Iara Deodoro, confeccionou um traje de lanceirinho negro para o menino Caio, neto de Iara. A imagem do guri trajado ganhou repercussão nacional e estimulou o instituto a ampliar a experiência para mais crianças, que hoje integram um grande exército de lanceirinhos.
Memória dos Lanceiros Negros
O mês de setembro, especialmente o dia 20, data da Revolução Farroupilha, é marcado por comemorações em todo o estado. Parte importante dessa história são os Lanceiros Negros, guarnição negra composta por escravizados alistados a partir da promessa de liberdade. Eles lutaram em diversas batalhas e contribuíram para os dez anos de resistência durante a guerra civil.
No fim do conflito, porém, essa trajetória foi marcada pelo episódio que ficou conhecido como Traição de Porongos. Na madrugada de 14 de novembro de 1844, a guarnição dos Lanceiros Negros foi surpreendida desarmada em Porongos, atual município de Pinheiro Machado, e dezenas de combatentes negros foram mortos.
O tradicionalismo gaúcho, contudo, historicamente exaltou as figuras do gaúcho e da prenda como símbolos regionais de luta e protagonismo na revolta. A contribuição dos Lanceiros Negros, assim como a Traição de Porongos, permanece invisibilizada em parte da história oficial. Esse apagamento histórico também funciona como recurso de opressão e contribui para a baixa autoestima do povo negro.
Desde 2019, o Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomode questiona a centralidade do homem branco no tradicionalismo e na formação da identidade simbólica regional. A reflexão começou internamente, envolvendo o corpo de bailarinos, músicos e a direção da entidade.
Em setembro daquele ano, a instituição produziu a indumentária do Lanceiro Negro para vestir crianças com roupas inspiradas nos ancestrais, guerreiros e heróis negros. A iniciativa ganhou repercussão nacional e levou a entidade a ser procurada para confeccionar trajes e participar de conversas com crianças em escolas.
A partir dessa experiência, surgiram as primeiras atividades do projeto Acampamento Lanceirinhos Negros, com a participação de crianças de 4 a 12 anos do projeto Nossa Identidade e dos quilombos urbanos de Porto Alegre: Quilombo Lemos, Quilombo Silva, Quilombo dos Flores e Quilombo Ouro.
Infância negra e autoestima
A ampliação da autoestima das crianças é um dos pilares do projeto. Para Edjana, o trabalho desenvolvido pelo Afro-Sul Odomode tem impactos que vão além das atividades realizadas durante o acampamento.
“Empoderar a infância negra no Rio Grande do Sul é construir uma base sólida para comunidades mais justas. Quando uma criança descobre a sua força, ela renova todo o seu entorno. O projeto já mudou a realidade de centenas de crianças gaúchas, devolvendo a elas o direito de sonhar alto”, afirma Edjana.
“Através da educação, da cultura e do fortalecimento da autoestima, despertamos o potencial de liderança de cada menino e menina. O impacto vai muito além das atividades desenvolvidas no acampamento: vemos crianças mais seguras, comunicativas e conscientes de seu papel na sociedade”, completa a educadora.
Serviço
Lanceirinhos Negros – projeto do Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomode
Quando: sábado (12), a partir das 17h, até domingo (13), às 12h
Onde: Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora – estrada Afonso Lourenço Mariante, 437, Lomba do Pinheiro
Inscrições: formulário online – vagas limitadas















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