Os principais reservatórios de regularização do Rio São Francisco entraram na segunda quinzena de março em patamares que ampliam a segurança hídrica e energética da bacia. As chuvas significativas, principalmente em Minas Gerais, estão garantindo vazões consideráveis desde dezembro.
Em Três Marias, no Centro de Minas Gerais, o volume útil atingiu 96,67% na atualização na noite terça-feira, 17 de março. Em Sobradinho, no norte da Bahia, o painel mais recente consultado indica 80,39% de volume útil, com manutenção de afluência elevada e defluência ainda bem abaixo da entrada de água.
O cenário fortalece a perspectiva de uma vazão mais favorável ao longo de 2026, com reflexos para a operação do sistema elétrico, para a biodiversidade e para as atividades ribeirinhas.
Na Usina Hidrelétrica de Três Marias, os dados mais recentes da Cemig mostram nível de 572,02 metros, afluência de 1.619,33 metros cúbicos por segundo (m³/s) e defluência de 787,75 m³/s. Apesar de ainda haver previsão de chuvas no Alto São Francisco, a companhia ainda não anunciou se será necessário abrir as comportas. Esta decisão é baseada nas avaliações de previsão meteorológica e de dados coletados no Rio São Francisco e afluentes formadores do reservatório.
Em Sobradinho, a cota é de 391,05 metros, afluência de 3.400 m³/s, defluência de 1.186 m³/s e volume útil de 80,39%. Em ambos os casos, o quadro é de reservatórios em condição confortável para a época, o que amplia a capacidade de regularização do Velho Chico entre Minas Gerais e o semiárido baiano.
O dado mais relevante é que os dois reservatórios seguem em níveis altos justamente na transição do período chuvoso para os próximos meses mais secos. Isso significa que o sistema entra em 2026 com mais água armazenada para sustentar descargas controladas no rio, reduzir o risco de restrições severas de vazão e dar maior previsibilidade aos usos múltiplos da água.
Na comparação com o mesmo período do ano passado, Três Marias apresenta avanço expressivo. Há exatamente um ano, o volume útil do reservatório mineiro era de 81,54%. Agora, com 96,67%, houve alta de 15,13 pontos percentuais.
Sobradinho, por sua vez, estava em 83,17% há um ano e aparece agora com 80,39%, uma diferença de 2,78 pontos percentuais para baixo. Mesmo assim, o reservatório baiano voltou a operar acima de 80%, faixa considerada relevante para a regulação do rio e para a segurança do sistema hídrico do São Francisco. Além disso, a alta vazão a montante deve permanecer elevando o nível do reservatório por mais algumas semanas.
Na prática, a combinação entre Três Marias perto da capacidade máxima operacional e Sobradinho novamente acima de 80% melhora a condição de controle de vazões ao longo do eixo principal do rio. Isso porque Três Marias é o principal reservatório de regularização na parte alta da bacia, enquanto Sobradinho exerce papel decisivo no armazenamento e na gestão da água no Submédio São Francisco.
Mais margem para geração de energia conforme a demanda do ONS
Reservatórios mais cheios também aumentam a flexibilidade da operação energética. No Sistema Interligado Nacional (SIN), coordenado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), as hidrelétricas continuam com papel central no atendimento ao mercado de energia, em articulação com fontes como eólica, solar e térmica. Com mais água armazenada, o sistema ganha margem para atender a demanda de carga com maior segurança e para dosar melhor o uso dos reservatórios ao longo do ano.
Isso não significa liberação irrestrita de água nem geração máxima permanente. A operação segue submetida às regras da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), aos critérios do ONS e às necessidades do próprio sistema elétrico. Ainda assim, um cenário de armazenamento elevado reduz a pressão típica dos períodos críticos, quando a água precisa ser preservada com mais rigor e as vazões ficam mais limitadas.
No caso do São Francisco, isso é especialmente importante porque o rio atende simultaneamente à geração de energia, ao abastecimento humano, à irrigação, à pesca, à navegação, ao turismo e à manutenção de ecossistemas aquáticos. Quanto maior a reserva disponível, maior a possibilidade de conciliar esses usos sem depender de oscilações extremas na descarga das usinas.
Vazão mais estável beneficia biodiversidade e atividades ribeirinhas
A discussão sobre vazão controlada ganhou força no fim de fevereiro, quando o Ministério Público Federal ajuizou ação para pedir que Três Marias mantenha vazão mínima constante de 300 m³/s durante o dia, entre 6h e 18h. Segundo o MPF, a operação com variações bruscas entre descargas muito baixas no período diurno e mais altas à noite provoca o chamado “efeito sanfona”, que afeta a navegação, o turismo, a pesca e a vida aquática.
De acordo com a ação, a redução excessiva da lâmina d’água pode expor o leito do rio ao sol forte, concentrar poluentes, elevar a salinidade, diminuir o oxigênio disponível e prejudicar o ciclo reprodutivo de espécies nativas. O MPF também cita impactos diretos sobre pescadores, pequenos comerciantes e moradores que dependem da estabilidade do rio para trabalhar e se deslocar.
Nesse contexto, reservatórios em níveis mais altos tendem a favorecer uma operação mais previsível e menos agressiva para o ambiente. Com mais capacidade de regularização, cresce a chance de manutenção de uma vazão contínua e mais equilibrada, o que ajuda a preservar habitats aquáticos, reduz o estresse sobre os peixes, melhora as condições de captação de água e dá mais segurança para atividades como pesca artesanal, travessias, turismo fluvial e uso agrícola nas margens do rio.
Para comunidades ribeirinhas, a vazão controlada também representa mais previsibilidade no dia a dia. A estabilidade do nível do rio facilita o planejamento de plantios em áreas de vazante, o funcionamento de sistemas de irrigação, o acesso a pontos de embarque, a operação de pequenas embarcações e até atividades ligadas ao lazer e ao comércio local.
Cenário de 2026 é mais favorável para o Velho Chico
O momento atual não elimina a necessidade de monitoramento nem afasta completamente o risco de ajustes operacionais ao longo do ano. A evolução das chuvas nas sub-bacias, a demanda do sistema elétrico e as decisões de operação continuarão influenciando o comportamento do rio nos próximos meses até o fim do período chuvoso. Mesmo assim, os níveis atuais de Três Marias e Sobradinho colocam o São Francisco em uma condição mais favorável do que em vários momentos recentes.
Com Três Marias em 96,67% e Sobradinho em 80,39%, o sistema ganha mais capacidade para atravessar a estiagem com segurança, sustentando vazões melhores para a geração de energia e para os múltiplos usos da água. Para quem vive, produz e trabalha às margens do Velho Chico, o enchimento dos reservatórios representa mais do que um dado técnico: é um indicativo concreto de que 2026 pode ser um ano de maior estabilidade hídrica no principal rio do semiárido brasileiro.












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